Aos 31 deste mês, o golpe militar de 1964 completa 50 anos e é assustador como a curta memória política parece se instalar cada vez mais entre nós, brasileiros. Por isso, selecionei aqui – sem um critério padrão – dez filmes que mostram a ditadura sob ângulos distintos.

Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho

Abandonado em 1964 sob acusação de comunismo, quando o Exército interferiu nas filmagens, o longa voltou a ser produzido pelo cineasta em 1981. Dentre outros aspectos do material, como a singular impressão da criatividade de Coutinho, Cabra revela sob aspecto pessoal as mudanças que os seus personagens, camponeses no interior de Pernambuco, lidaram durante este momento de transição na nossa história. Extremamente original como material cinematográfico e um interessante e insólito olhar sobre o período.

Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton

Apesar do incômodo didatismo do roteiro, o longa é eficiente em contar a história dos frades dominicanos que abriram as portas de seu convento para abrigar o grupo da Aliança Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella. Gerando desconfiança, os frades logo passaram a ser alvo da polícia, sofrendo torturas físicas e psicológicas que marcaram a política militar. Bastante cru, o trabalho traz boas atuações do elenco principal e faz um retrato impiedoso do sofrimento gerado pela ditadura.

Marighella, de Isa Grinspum Ferraz

A sobrinha do ‘inimigo número um da ditadura no Brasil’, Carlos Marighella, dirige este documentário dividido entre percepções familiares, formação e acontecimentos que marcaram tanto a vida do protagonista como a política do país. Mesmo que em alguns momentos as observações de Isa em relação ao tio pareçam demasiadamente romantizadas, além da sensação de clara parcialidade expressada pelos entrevistados (o que é inevitável já que, em sua maioria, são pessoas muito próximas de Marighella), este filme traz consigo uma inquestionável importância histórica e informativa, em uma sociedade que parece abraçar cada vez mais a ignorância e a curta memória política.

A trilha sonora é, por vezes, perturbadora e o equilíbrio entre entrevistas e narrações, tanto originais como na voz de Lázaro Ramos, criam uma envolvente dinâmica, não bastasse o interesse na figura central. E é comovente a declaração da esposa de Marighella, Clara Charf, de que lhe era restrito sorrir em público. Se considerada ainda uma atual e crescente geração que, assustadoramente, define combatentes da ditadura como arruaceiros e terroristas, o recente documentário soa praticamente obrigatório.

Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle

Em meio a imagens e áudios de arquivo revoltantes, como diálogos na Casa Branca sobre uma possível intervenção militar no Brasil, o longa faz de uma ideia a princípio absurda, uma quase certeza quando os créditos surgem na tela: o assassinato do presidente João Goulart. Intercalando entrevistas importantíssimas e documentos reveladores, o filme reúne pistas que convencem o público a, no mínimo, duvidar da causa da morte do ex-presidente. O material é tão bem articulado e claro em situar o espectador dos fatos, que é funcional tanto pelo viés biográfico como o de denúncia.

Pra frente Brasil, de Roberto Farias

Retratando a intensa repressão sofrida por opositores durante o governo Médici, o longa traz Reginaldo Faria como um pacato trabalhador que aceita dividir o taxi com um desconhecido ao desembarcar no aeroporto. Sem saber o motivo, ele é sequestrado por perseguidores que, em cativeiro, passam a torturá-lo e questioná-lo sobre o sujeito que ele havia acabado de conhecer. O sequestro, por sinal, acontece no início da Copa do Mundo daquele ano. O filme é um dos primeiros a tocar abertamente na temática da ditadura no Brasil e traz personagens interessantes, como aqueles interpretados por Antônio Fagundes e Natália do Valle, cidadãos que antes apoiavam o governo e agora, desesperados, passam a questioná-lo.

Uma longa viagem, de Lúcia Murat

A cineasta ex-presa política da ditadura presenteia o público com um documentário assumidamente pessoal, guiado pelas “viagens” do seu irmão mais novo e outras memórias. O formato do filme mescla depoimentos bem humorados com imagens de filmes, músicas setentistas, atualidades e um Caio Blat impecável dramatizando cartas de Heitor à sua mãe enquanto viajava. Feliz do espectador que embarca na jornada de Heitor através deste trabalho, compreendendo melhor a geração dos anos 70 e sua busca incansável por liberdade.

Hércules 56, de Sílvio Da-Rin

Conta, em formato de documentário, a história que O que é isso companheiro? se propôs a retratar, mas acabou resultando em um trabalho que preza pelo puro entretenimento. Aqui, pelo contrário, o sequestro do embaixador americano que, mais tarde, fora trocado por 15 presos políticos, é contado em depoimentos essenciais, tanto dos envolvidos no sequestro quanto dos presos transportados no avião Hércules 56. Sem grandes formalidades, o trabalho leva ao espectador certas reflexões, muitas vezes bem humoradas, sobre os atos que marcaram o episódio. E, pelo menos do ponto de vista histórico, é certamente mais rico que o filme de Bruno Barreto.

Cabra-cega, de Toni Venturi

Um thriller dramático muito bem dirigido e com grande atuação de Leonardo Medeiros. Ele é Tiago, um jovem militante da luta armada que, após ser ferido com um tiro, busca abrigo na casa de um arquiteto. Apesar da aparente compatibilidade de ideias, ambos constroem uma tensa relação de estranhamento. Em seu próprio ritmo, o longa escapa dos clichês e traz reflexões sobre o que era ser um guerrilheiro nos anos de chumbo, incluindo as próprias contradições da luta armada. Sua inteligência lhe rendeu, dentre outros, o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular, no Festival de Brasília.

O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer

Aqui a ditadura é observada pelo olhar infantil de Mauro, um guri de 12 anos que precisa passar um tempo morando com o avô, já que os seus pais estão saindo de férias. Na verdade, o pai e a mãe de Mauro estão viajando por serem militantes de esquerda e são perseguidos pelo governo militar. Entretanto, o avô de Mauro falece no primeiro dia de sua estadia, e o garoto passa a conviver com seu vizinho judeu. Mesmo mantendo grande delicadeza, é bela a recusa do longa em se entregar ao melodrama, investindo nas singelezas do cotidiano do menino, cujos momentos se alternam entre a tristeza de estar longe dos pais e a emoção de acompanhar a Seleção na Copa de 70.

Ação entre amigos, de Beto Brant

Quando em 1971 quatro jovens amigos foram presos e torturados pela repressão, a namorada (grávida) de um deles acabou sendo assassinada. Vinte e cinco anos depois, os amigos se reúnem ao descobrirem que o torturador responsável continua vivo. Esta reunião tem um propósito: eles decidem sequestrar o sujeito e matá-lo. O filme às vezes sofre com as fracas performances dos atores que encarnam os amigos quando jovens. Entretanto, a experiência de assistir a ele é especialmente válida se levada em conta a complexidade que o roteiro oferece ao explorar as pretensões de cada um dos quatro amigos. Rápido e dirigido em ritmo envolvente, o longa merece atenção.