Dias antes de vencer o Oscar por interpretar uma mulher transgênero no filme Clube de Compras Dallas, Jared Leto virou alvo de críticas por parte de um membro da plateia do Festival Internacional de Cinema de Santa Barbara.

“Transmisoginia não merece um prêmio”, gritou uma mulher não identificada da platéia para o ator no palco. Quando questionada, ela respondeu: “Você não merece um prêmio por retratar uma mulher trans, porque você é um homem.”

Jared Leto recebendo Oscar em 2014. (Foto: Reprodução Academy Awards)

A acusação está enraizada no que alguns na comunidade LGBT se referem como “transface”, quando um ator cisgênero vai “assumir” um papel de um transgênero.

Hollywood é uma indústria discriminatória, que prefere lançar uma estrela de cinema cisgênero – que se transforma para se parecer com uma pessoa transgênero por meio de dieta e maquiagem – ao invés de dar espaço para transexuais com experiência autêntica de vida para esse papel.

Leto não está sozinho. Jill Soloway, criadora da série “Transparent”, também foi confrontado por uma ativista trans durante uma pré-estréia no Outfest, um proeminente festival de cinema LGBT, em Los Angeles. A ativista, Ashley Love, criticou escolha do ator cisgênero Jeffrey Tambor como a trans Maura, um personagem inspirado na própria mãe da criadora.

“É humilhante. Nos sentimos representadas pelo gênero errado”, disse Love sobre a escalação de Tambor, que ela identificou como um “ator masculino popular” escolhido no lugar de uma série de atrizes trans. Em resposta, Soloway se desculpou pela forma que a série feriu os sentimentos das pessoas. Rhys Ernst, um homem trans e conselheiro no show, defendeu a escolha de elenco, salientando que Tambor é certo para o papel, pois o personagem “começa antes de sua transição de gênero.”

Jeffrey Tambor, na pele da transexual Maura Pfefferman na série Transparent, da Amazon. (Foto: Reprodução)

Indiscutivelmente, Soloway está acima e além de qualquer outro na área por contar com diversos transexuais para produção de seu seriado. Atores trans, entre eles Ian Harvie, desempenham papéis no show, além da contratação da escritora trans, Our Lady J, para roteirizar a segunda temporada. A série também teve inúmeros consultores trans, entre eles, Jennifer Boylan, que também atua como o co-presidente do conselho nacional da GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation)

Sabendo das possíveis críticas sobre escalação de Tambor, Boylan escreveu para o New York Times um texto defendendo sua escolha, dizendo que a incapacidade inicial de alguns espectadores para ver Tambor como mais do que apenas um “homem em um vestido” trabalha em favor do papel, pois ele derruba os “efeitos nocivos das representações estereotipadas de mulheres trans como vítimas ou vilões”.

“Ele captura o problema surpreendentemente universal de sermos definido apenas por nossa biologia, ao invés de nosso espírito”, escreveu Boylan. “Ele deveria nos fazer parar e pensar sobre o que significa ser um homem ou uma mulher, e, a luta que muitas pessoas enfrentam na tentativa de viver a nossa verdade. Isso não é um problema exclusivo para transexuais. É a mesma coisa para todos nós.”

No entanto, o problema permanece, particularmente durante temporada de premiações, quando aclamação é direcionada para esses atores. Ambos, Tambor e Soloway, ganharam o Globo de Ouro por Transparent. Leto levou para casa o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Clube de Compras Dallas. Outros atores cisgêneros que foram lembrados para o Oscar por interpretar papéis trans incluem Hilary Swank, em Meninos Não Choram, Felicity Huffman em Transamerica, e John Lithgow em O Mundo Segundo Garp.

Jeffrey Tambor, com o prêmio de melhor ator no Globo de Ouro, ao lado da criadora Jill Solloway e o elenco de Transparent. (Foto: Mike Blake / Reuters)

“Interpretar um personagem trans é um dos muitos papéis que os atores procuram para um grande retorno na carreira através de reconhecimento da indústria”, diz a cineasta trans Andrea James, para o The Atlantic.”Fisicamente transformando-se para um papel, ganhando ou perdendo peso, ou tornando-se se irreconhecível através de maquiagem e efeitos, é uma forma já utilizada para gerar prêmios e chamar a atenção.”

Claro que estes tipos de transformações não estão limitados a transexualidade. Atores heterossexuais desempenham papéis de gays e lésbicas há décadas. Este ano, Benedict Cumberbatch foi indicado por sua interpretação do matemático Alan Turing em O jogo da Imitação. Além disso, os atores que não têm deficiência têm retratado personagens com deficiência; Eddie Redmayne ganhou o Oscar de Melhor Ator deste ano por sua interpretação de Stephen Hawking em A Teoria de Tudo.

Eddie Redmayne como Stephen Hawking no filma A Teoria de Tudo. (Foto: Reprodução / Universal)

“Se todos os principais papéis trans irem para atores cis, como é que os transexuais terão oportunidades e experiências necessárias para deslanchar em papéis maiores?”

No evento em Santa Barbara, em resposta às críticas, Leto apontou que exigir que um ator corresponda a orientação sexual e identidade de gênero de um personagem também limita as oportunidades de atuação dos artistas LGBT.

“Porque eu sou um homem, eu não mereço interpretar esse papel?”, Leto questionou o membro da audiência. “Então você seria contra alguém gay ou lésbica que interpreta um heterossexual? Então você tem certeza que gays, pessoas não heterossexuais, pessoas como a Rayon (seu personagem no filme) não poderiam virar o jogo e explorar a arte?”.

Jared Leto na pele da transexual Rayon no filme Clube de Compras Dallas. (Foto: Reprodução / Focus Features)

Na festa de gala para celebrar o 15º aniversário de Meninos Não Choram, no tapete vermelho muitos atores expressaram um ponto de vista semelhante ao de Leto.

Hilary Swank, atriz que ficou famosa por interpretar o homem trans Brandon Teena, disse que “entende completamente” quem fica chateado pela escolha de um ator cisgênero em um papel de transgênero. Mas para ela, o papel fica com o melhor, independentemente da sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Hilary Swank em cena do filme Meninos não Choram. (Foto: Reprodução / Fox Searchlight)

“É um desafio. Eu acho que se um ator ou atriz trans é certo para o papel, então eu acho que eles deveriam conseguir”, disse ela. “Mas no final, nós somos as pessoas que estão retratando personagens…. É como se alguém estivesse me dizendo que eu não poderia interpretar Brandon Teena por não ser gay, lésbica ou transexual. Eu acho que eles apenas pensaram que eu era a pessoa certa naquele momento para retratar esse personagem.”

“Todos devem ter a oportunidade de fazer um teste, ter a chance de atuar e de fazer parte de um filme,” Swank concluiu. “Mas no final, eu não acho que eles deveriam conseguir só  porque eles realmente vivem isso dia a dia.”

A atriz transexual Jamie Clayton em cena da série Sense 8, do Netflix. Assim como Laverne Cox, de Orange is the New Black, seu personagem é transexual. (Foto: Netflix)

Natasha Lyonne, uma atriz hétero que interpreta uma personagem lésbica em Orange Is The New Black, concorda com Swank. “Que vença o melhor ator”, disse ela, fazendo referência ao poderoso desempenho do Swank em Meninos Não Choram.

“É quase impossível imaginar que alguém teria feito melhor”, disse Lyonne, apontando que “estrelas chamando a atenção para um filme também pode ser uma grande coisa”, ao colocar no holofote questões trans.

Na verdade, Lyonne gostaria de ver menos restrições para papéis com base no sexo.

“Falando de forma egoísta, eu adoraria papéis que são escritos para homens”, disse ela. “Muitas vezes, quando eu estou lendo alguma coisa, [eu digo para mim mesmo] ‘Por que descrever esse personagem como um cara? Por que ele não diz, detetive Reynolds?'”, ao invés de usar pronomes ou primeiros nomes que limitariam o papel.

Eddie Redmayne no papel de Lili Elbe, no filme “A Garota Dinamarquesa”, sobre Lili Elbe, conhecida por ser a primeira pessoa a fazer uma cirurgia de genital. (Foto: Reprodução / Working Title Films)

No entanto, outros afirmam que Hollywood tem a responsabilidade de escalar transexuais para algo maior. Laverne Cox, uma das estrelas de Orange is the New Black, da Netflix, é talvez o maior argumento para dar papéis trans para artistas trans. Sua visibilidade lançou-a como um ícone e ativista, que usou sua posição para aumentar a conscientização sobre questões trans para muitos no público mainstream.

Laverne Cox como a personagem Sophia Burset na famosa série Orange is the New Black. (Foto: Netflix)

Armistead Maupin, autor gay da série Tales of the City, escreveu uma das mais proeminentes mulheres trans na literatura: Anna Madrigal. Ele observou o momento crítico do movimento dos direitos transexuais atualmente, e revelou ao The Advocate que ele iria “pensar seriamente sobre encontrar uma trans para interpretar Anna” na adaptação para a tela grande, após ter sido exibido na tv. (O papel foi desempenhado pela Olympia Dukakis, cisgênero, em série da PBS e Showtime na década de 1990).

Armistead Maupin, autor da série Tales of the City. Para ele, mais atores trans devem interpretar trans. (Foto: Reprodução)

“Eu acho que essa é a única maneira de conseguir avanços na nossa cultura”, disse Maupin sobre escalar trans em papéis principais. “Nós estamos em um lugar na história onde eu acho que seria muito, muito interessante dar esse papel. Jeffrey Tambor é um hétero interpretando uma mulher trans. Mas esse movimento é sobre a abertura do mundo para todos, e [escalar uma atriz trans como Anna] certamente seria um grande passo nessa direção. ”

A atriz Felicity Huffman em cena no filme Transamérica (2005), em que interpreta Bree, uma transexual que conhece seu filho após a transição. O filme lhe rendeu um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. (Foto: Reprodução / Bac Filmes)

“Há realidades empresariais que forçam a indústria para fazer certos tipos de decisões que não são necessariamente do nosso interesse como uma comunidade”, diz a cineasta trans Andrea James. “Eu entendo de ambos os lados. Como produtor, eu vejo por que você deseja obter o melhor e maior, e a mais experiente pessoa que puder para um filme, especialmente se você já trabalhou com ele durante anos e anos e têm investidores que você quer pagar de volta. Mas, por outro lado, a outra parte de mim deseja que exista mais tipos dessas oportunidades para artistas trans.”

Ellen Fanning em cena do filme “Meu nome é Ray”. A diretora do filme, Gaby Dellal, afirmou em entrevista que a escolha de elenco pensada para atrair verba de produtores. (Foto: Reprodução / Big Beach Films)

“É complicado”, ela continuou. “Não é tão fácil como as pessoas fora da indústria querem pensar que é. Em um mundo perfeito, teríamos atores trans interpretando esses papéis, mas não vivemos nesse mundo, e há muitos de nós trabalhando duro para tentar mudar isso. Mas isso vai levar tempo, como aconteceu com atores gays e lésbicas. Estamos 30 anos atrasados.”

No vídeo abaixo (sem legenda), Grishno, uma das fundadoras da Comunidade Transgênero do Youtube, explica um pouco sobre o conceito de “transface” e como Hollywood trata essa questão: