(Foto: Chico Tchello)

A balada mais comentada no momento em São Paulo não tem valet, nome na porta ou cerveja do tipo IPA. As paredes e o teto são sujas de fuligem e pixo. O chão é de asfalto e a gerência diz que não aceita cartão. Aliás, que gerência o quê. No Buraco da Minhoca não tem disso, não. Ali, quem manda é o povo. Que chega, monta som, começa a tocar e logo tem uma pista de centenas pronta para atravessar a noite. O Buraco da Minhoca é um resumo de conceitos legais de São Paulo, de ontem e hoje: o faça-você-mesmo do punk, o hedonismo maratonista da música eletrônica, a capacidade realizadora dos coletivos, a reocupação do Centro e a retomada das vias públicas. Como diz na página da festa no Facebook: “O buraco da minhoca é uma passagem para outra dimensão de ocupação do espaço público.

(Foto: Facebook/Buraco da Minhoca)

Sair de casa para dançar e se jogar na pista é um ato político – e em São Paulo, cidade que por vezes entende apenas a lógica dos lugares fechados, preços inacessíveis e listas VIP, a festa é ainda mais significativa quando o cenário é a céu aberto.

Nos últimos meses, festas na rua vêm proliferando de maneira significativa em São Paulo, com inúmeras opções para quem quer não só economizar como ter o prazer de ocupar as ruas, aproveitar o verão e juntar os amigos. Nomes como Metanol, Free Beats e Selvagem já são conhecidos entre o público ligado da cidade, e todo fim de semana traz alguma festa inédita, normalmente anunciada em cima da hora pelas redes sociais.

Ainda mais importante é o precedente, já que cada vez mais artistas, organizadores e performers perceberam que a cidade é terreno livre para invenção e ocupação. Um bom exemplo disso é o SP na Rua, que colocou todo mundo para dançar ao som de diversos coletivos sob o cenário do centro antigo da cidade.

O movimento de festas em espaços públicos foi logo atraindo atenção suficiente para virar assunto da esfera política. Com a mudança de administração, que sob o comando de Kassab chegou a proibir a atuação de artistas de rua nas principais vias da cidade, a atitude em relação à ocupação do espaço público também começou a se transformar.

Em janeiro deste ano, Haddad vetou o projeto de lei que proibia a utilização de vias públicas para a realização de bailes funk e qualquer outro evento musical/cultural que não tenha sido pré-aprovado pela prefeitura – vale lembrar que o projeto era de autoria dos vereadores Conte Lopes, do PTB, e de Coronel Camilo, do PSD, ex-comandante da Rota. O fim da proibição abriu espaço para manifestações culturais eventuais, em um começo de ano também marcado pelo primeiro Carnaval no qual os blocos de rua foram oficialmente autorizados pela prefeitura.

(Foto: Facebook/Buraco da Minhoca)

Foi nesse contexto que mais uma área “marginal” da cidade se tornou local de comemoração. No dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, o túnel entre o Minhocão e a Rua Augusta, debaixo da Praça Roosevelt, ganhou um novo nome: Buraco da Minhoca. Aproveitando que o tráfego de veículos é proibido durante a madrugada – e transformando a tristeza das fortes luzes “anti-mendigo” em estrobos da pista de dança -, um grupo de artistas, DJs e performers acabou ocupando o espaço de maneira inesperada.

“A primeira festa aconteceu por acaso. Eu já caminhava há mais de um ano pela cidade carregando uma caixa amplificada presa ao corpo, e comecei a discotecar nos eventos da galera do Organismo Vivo Parque Augusta. No dia 25 rolou o primeiro protesto ‘Não Vai Ter Copa’, e o coletivo decidiu ir para a Paulista. No fim, rolou um confronto com a PM e descemos para a Roosevelt. Soltamos um som e começou a chegar gente, e umas 22h a GCM avisou que a festa precisaria acabar. Daí que falei pro pessoal para descermos para o túnel. O povo foi aglomerando e assim nasceu a festa. Cheguei em casa, batizei como Buraco da Minhoca, criei a página no Facebook e tivemos mais cinco eventos espontâneos”, explica o DJ Chico Tchello.

No dia 22 de fevereiro o local teve sua primeira grande festa, a Circolando no Buraco, que contou com Tchello, Dani Maddox e Márcio Vermelho. Segundo a organização, cerca de 5 mil pessoas passaram pela festa.

Festa Capslock embaixo da Praça Roosevelt (Foto: Paulo Tessuto)

Acabou a festa

Semanas depois, foi a vez de mais uma festa ocupar o espaço do Buraco da Minhoca. Em pleno Carnaval, a festa Capslock botou o bloco na rua e convidou os foliões a dançarem de graça no centro a partir do fim da tarde. Desta vez, entretanto, a Polícia Militar parou a festa sob a alegação de que não havia autorização prévia para o evento. De acordo com o Artigo 5º do Decreto 49.969/08 e Seção 3.5 da Lei 11.228/92, qualquer manifestação tida como eventual que se utilize de logradouros públicos (ruas, praças viadutos e parques) precisa de uma autorização prévia da prefeitura, que tem até 30 dias para liberar ou não um alvará de autorização para eventos temporários.

“Leve o lixo e deixe a saudade” (Foto: Facebook/Buraco da Minhoca)

“A festa tinha autorização, porém faltou a palavra dispersão no documento, o que foi usado como instrumento para barrar a festa. O grande problema que tivemos foi uma denúncia que ocorreu antes da festa, com os policiais monitorando o evento por conta de uma denúncia de prováveis moradores da região”, explicou Paulo Tessuto, organizador da Capslock. Segundo ele, todas as festas são “ilegais” no sentido estrito, já que os eventos são organizados de maneira independente e orgânica, o que dificulta uma articulação meses ante diante das autoridades.

“O ideal é que todo mundo que for organizar uma festa procure a subprefeitura da região para viabilizar uma autorização, que blinda o evento de eventuais denúncias ou reclamações relativas a um barulho eventual. Se ocupar a via dos carros, é necessário entrar em contato também com a CET”, completou ele, que organizou outro evento no último domingo (9). “Foi mais uma festa sem autorização. A polícia apareceu após uma reclamação de barulho, mas como o denunciante não formalizou a reclamação, assinei um B.O e a festa continuou”, explicou Tessuto.

Agenda oficial

Na noite de quinta-feira (13), o Buraco da Minhoca anunciou em sua página no Facebook que o espaço está oficialmente regularizado. “É com muita emoção que informo a todos vocês que o Buraco da Minhoca foi aceito como evento oficial e será devidamente regularizado pela prefeitura, CET, GCM e Secretaria de Segurança Pública”.

Em entrevista, Paulo Tessuto confirmou que a nova administração está aberta a conversas, e que a Capslock está em negociação. “Vamos discutir uma agenda de ocupação. Anteriormente, nunca tínhamos ido atrás de autorização porque era difícil e burocrático. Mas com o crescimento desse movimento as coisas estão ficando mais fáceis, e pretendemos discutir isso”, explicou.

Chico Tchello adiantou que duas festas já estão a caminho para os próximos dias. “Uma delas provavelmente irá se chamar ‘noite do rala tanga’ (a festa com essa nome foi confirmada – CR), festa escrachada com temática inspirada na pornochanchada. A ideia é tocar o roots da MPB, com nomes desconhecidos de artistas e grupos que estamos garimpando em lojas de CD”.