É uma espécie de acampamento de verão, que reuniu 60 garotas de 7 a 17 anos para uma semana de música e diversão em Sorocaba (SP). Saídas de vários lugares do Brasil, as meninas se reúnem para aprender música – mas, acima de tudo, para celebrar coisas como a amizade, o trabalho em grupo, a solidariedade e a autoestima.

“Eu adoro o som que ela faz”, diz Alice, de 7 anos, sem parar de tocar a bateria nem na hora em que fala com o repórter. Com a guitarra na mão, Maria Fernanda, de 9 anos, conta que a inspiração veio de casa. “As minhas primas têm uma banda”, diz. “E você também quer ter uma?” “Claro!”

(Foto: Fernando Cesarotti/G1)

“Nosso foco é o empoderamento feminino. O objetivo não é formar bandas nem revelar talentos, mas mostrar que as meninas podem fazer o que elas quiserem, inclusive ter uma banda de rock. Mostrar que elas são iguais aos meninos e não precisam depender deles para nada”, explica Flavia Biggs, socióloga, guitarrista com mais de uma década de estrada na cena do rock independente e diretora do evento.

Flavia se inspirou no Girls Rock Camp americano, criado em 2001 e que ela frequentou em três ocasiões. Depois de organizar diversas oficinas específicas de guitarra para meninas, ela organiza um evento de temática feminista óbvia, mas sem explicitar a palavra “feminismo”. “As meninas em geral têm uma formação individualista, de competir umas com as outras, além de passiva, ou seja, de esperar que outra pessoa tome a atitude.” Por isso, explica, a ausência de meninos: “Se eles estivessem aqui, provavelmente tomariam a frente para organizar e liderar tudo. Por isso, para que a gente possa treinar essa atitude independente, é que o evento é feito só de meninas”, completa.

(Foto: Fernando Cesarotti/G1)

Há ainda o componente artístico. Bandas só de mulheres são muito mais raras que bandas de homens – que, eventualmente, aceitam uma mulher como vocalista. “A gente não é incentivada a tentar instrumentos como guitarra, baixo e bateria, acaba muitas vezes relegada a cantar ou tocar teclado, que seria uma coisa mais feminina. Aqui, a gente mostra que esse tipo de escolha não tem nada a ver com o sexo”, diz Patricia Saltara, outra das organizadoras, também ela guitarrista e membro de banda.

As inscrições para o evento se encerraram em apenas quatro dias – e ainda sobrou uma fila de espera com cerca de 40 nomes. No ato, as meninas já tinham que escolher um instrumento, e uma das primeiras atividades do acampamento, aberto na última segunda-feira (13), foi a formação de 10 bandas, cada uma delas com seis integrantes – vocalista, duas guitarristas, baixista, tecladista e baterista -, separadas pela afinidade musical.

(Foto: Fernando Cesarotti/G1)

Como saber tocar não era condição para participar, as meninas aprendem um pouco de teoria musical, recebem dicas de composição e noções básicas de cada instrumento. Cada grupo tem de compor uma música própria para a apresentação de encerramento, que será neste sábado (18). Mas dizem que rock não é só música, mas atitude – e, por isso, as aulas são intercaladas com oficinas de skate e silk screen, para fazer as camisetas personalizadas das bandas.  “Com isso, elas aprendem a ter responsabilidade, a respeitar a opinião da maioria, a ter uma verdadeira concepção do que é trabalhar em grupo”, diz Flavia.

Também estão no “currículo” aulas de defesa pessoal, para prevenção de situações de assédio e violência. Elas se dividem em grupos e metade representa meninos em posição ofensiva, enquanto outras colocam a mão na frente do rosto para afastar o “oponente” enquanto gritam “não” em voz alta.

(Foto: Fernando Cesarotti/G1)

Colaborações
O ambiente colaborativo é uma característica fundamental do evento, bancado em parte pelas inscrições das participantes (50 delas pagaram R$ 75 e dez ganharam bolsa), parte por shows beneficentes realizados no segundo semestre do ano passado e parte por doações. A reportagem do G1 presenciou, por exemplo, a chegada de uma carga de oito caixas de picolé e dezenas de panetones, tudo dado por uma comerciante.

As instrutoras são todas voluntárias e recebem apenas a alimentação e a hospedagem – e muitas delas ainda emprestam seus próprios instrumentos. “É um ambiente que toca muito quem acredita na música como catalisador de transformação social”, discursa Patrícia Saltara.

(Foto: Fernando Cesarotti/G1)

Palco do evento desde sua primeira edição, no ano passado, a EE Prof. Júlio Bierrenbach de Lima, onde Flavia Biggs já deu aulas de sociologia, também não cobra nada. “Faz parte de nosso papel interagir com a comunidade e colaborar com a valorização do mundo feminino”, discursa a diretora, Maria Helena Vieira de Camargo. E o barulho não incomoda? “Claro que não. A escola deve ser um núcleo de propagação de todo tipo de conhecimento, e a gente dee se renovar, gostar de tudo”, completa.

As aulas e oficinas se encerraram na sexta-feira (17). Neste sábado, o bar Asteroid, que fica na rua Aparecida, 737, no bairro Santa Rosália, recebe o show de encerramento. Pais e parentes já estão empolgados. Os ingressos serão vendidos na hora, e costuma lotar. “No ano passado não coube todo mundo, ficou gente de fora”, relembra Flavia. Quem quiser ir deve chegar cedo. E melhor não levar a Barbie.