“Imagina, o autor colocou o Félix vendendo cachorro quente na 25 de março, mas lá não vende cachorro quente, é proibido, por questões de higiene”

Manchete do dia: “Funcionários de rede de fast food tomam banho em caixa d’agua da lanchonete em rua nobre de São Paulo”

“Imagina, até parece que alguém iria fazer mesmo o que essas loucas da novela fazem para aparecer, esses autores viajam na maionese”

Manchete do dia: “Após ficar com dois famosos diferentes durante o carnaval, subcelebridade afirma que vai fazer cirurgia para voltar a ser virgem”.

Li um artigo ontem em que a questão central era “por que raios as novelas ainda ocupam esse papel na vida do brasileiro?”.

Tema de livros de conteúdo respeitável, como A leitura social da novela das oito, da antropóloga gaúcha Ondina Fachel Leal, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e O Brasil Antenado, da também antropóloga Esther Hamburger, professora do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a novela no Brasil pode ser encarada de diversas formas, mas as duas mais comum são:

  • Um programa fútil e alienador, destinado às massas com o propósito um tanto conspiracionista de “emburrecer” a população.
  • Um programa que retrata traços da cultura contemporânea brasileira, e que, se analisado com mais profundidade, pode no mínimo enriquecer aquele papo de bar com a turma e gerar mais debate, opinião e conhecimento, ou ensinar algo sobre olhar crítico.

Vou contar uma historinha:

Eu havia acabado de me formar em ciências sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2003, quando estreou na Rede Globo a novela Celebridade, de Gilberto Braga, com Malu Mader no papel principal, da produtora cultural e ex-modelo Maria Clara Diniz. Prometia ser mais uma daquelas novelas do Gilberto Braga, retratando a sociedade brasileira. O tema da busca por ascensão social e fama me interessava muito, pois era uma das minhas áreas de estudos na antropologia. Alguns dias depois, em uma mesa de bar com os colegas cientistas sociais, comentei alguma coisa como “Ah, eu estava vendo a novela, por isso não te atendi o telefone”, quando um colega, dos mais fãs das aulas de cultura brasileira, de Gilberto Freyre a Roberto da Matta, me encarou com ar de reprovação e superioridade e falou: “Pô, Lígia, você, uma socióloga formada na UFRGS, vendo novela? Não acredito! Só falta me dizer que está vendo Big Brother também”.

Eu entendi que meu colega me deslegitimava como socióloga ou antropóloga por eu assistir novelas. Mas não entendia como, na mente de alguém tão estudioso, culto e aberto ao novo, novela era a representação de programa de entretenimento fútil, vazio e a ser combatido. Devemos incentivar as pessoas a lerem literatura brasileira, Machado de Assis a Paulo Leminski? Sim, devemos, o prazer da leitura de um bom livro é único. Mas em que momento isso virou concorrência? E ver seriados gringos, pode? Porque a grande maioria que critica a novela com um punhado de frases de Bauman no discurso devora de Friends aBreaking Bad.

Há quem se preocupe com o fato de a popularidade das novelas estar em alta no Brasil, em detrimento à leitura de livros. Na Noruega, país rico, número 1 no ranking de IDH no mundo, a literatura ocupa um posto satisfatório, mas o seriado Lilyhammer (exibido no Brasil pela Netflix) também é uma febre. Por que raios os noruegueses perdem seu tempo com um seriado que se passa em uma pequena cidade do interior da Noruega? Simples: porque o que gera identificação cultural, seja através de bordões, atitudes, personagens, sotaque ou hábitos e costumes, nos atrai.

O mundo das novelas e o Brasil como ele é

Em 2003, mesmo com todo o styling de Maria Clara Diniz e Laura (Claudia Abreu), quem “vendeu” e causou em termos de figurino, modos e atitudes, ganhando papel de destaque, foi Deborah Secco no papel de Darlene. Até ali, não lembro de ter lido antes na mídia o termo “subcelebridade”. Dez anos se passaram e Darlene continua fazendo escola. Sua última seguidora foi também uma personagem que se destacou e brilhou mais que alguns protagonistas, a Valdirene de Tatá Werneck, aquela que queria tanto ir para o BBB que foi mesmo, de verdade.

Em 2003, nem se ouvia falar ainda o termo “classe c” no Brasil. Mas Darlene estava lá apontando as cores, os esmaltes, as gírias e sonhos que mais se destacavam na novela não por intenção do autor, mas por escolha da população brasileira, que se identificava mais com ela do que com as personagens que já nasciam ricas, belas e famosas. Bom mesmo é o sol nascer para todos, e como no mundo bem conhecido do futebol brasileiro, em que craques disputados pelos maiores times do mundo vieram da periferia e dos morros, a conquista é na verdade o atributo mais perseguido e comemorados pelos telespectadores. Não importa se é dinheiro, sucesso, beleza, fama, marido rico, amor do pai ausente, vida no exterior, filho ou cura de doença. O que muitas vezes faz vibrar é o caminho até a conquista. Mesmo que no meio estejam gambiarras, jeitinhos brasileiros, truques e algumas maldadezinhas. No fim, todo personagem é humano e na maioria das novelas a grande conquista mesmo é o bom caráter que surge no último capítulo.

Brasil, um país popular

Outra novela, agora do fim dos anos 80, Vale Tudo já cantava “Brasil, mostra a tua cara!”. Assim como o Orkut, o rolezinho, o funk ostentação, as mulheres frutas, a 25 de março, a Avenida Brasil e muitos outros rótulos, personagens, movimentos, jargões, estilos e gambiarras, as novelas constituem um dos principais retratos de um país que é popular mas que não quer ser. Ou você conhece algum outro país no mundo que use a expressão “orkutizaram o facebook” como forma de expressar o descontentamento em ver uma rede social até então considerada para poucos ser aos poucos “invadida” pelas classes sociais de renda inferior?

A novela no Brasil não deveria ser objeto de piada, já que retrata muitos aspectos da realidade brasileira (alguns exagerados, outros disfarçados, afinal, é ficção e não documentário). Mas para captar isso, é preciso fazer como nos livros, e ir além do capítulo 1.