Uma nova pesquisa mostra que os macacos têm um trato vocal capaz de emitir uma fala parecida com a humana. No entanto, eles não contam com um circuito cerebral que formam as palavras. Isso pode ser algo bom, pois ouvir uma simulação vocal de como eles falariam é bem esquisito.

Por quase quatro décadas, cientistas pensavam que a falta de habilidade de primatas não-humanos de produzir a fala tinha relação com limitações anatômicas no trato vocal. Autópsias feitas em macacos pareciam indicar um alcance vocal muito limitado comparado aos humanos.

Um novo estudo publicado no periódico Science Advances sugere que este pensamento está errado, e que pelo menos uma espécie de macaco, no caso os macacos do velho mundo, possui uma anatomia vocal que produz uma fala claramente inteligível. Como observam os pesquisadores do Princeton Neuroscience Institute no paper, a aparente falta de habilidade de produzir sons humanos tem mais relação com os limites no cérebro do macaco.

Para mostrar isso, o neurocientista Asif Ghazanfar e seus colegas investigaram a extensão de movimentos da anatomia vocal do macaco do novo mundo para saber quais sons seriam produzidos. A pesquisa usou vídeos em raio-X para capturar as peculiaridades e então traçar os movimentos das diferentes partes da anatomia da espécie, inclusive a língua, lábios e a laringe, pois o objeto de teste emitiu vários sons e fez diferentes movimentos faciais. Cientistas do laboratório de inteligência artificial VUB, na Bélgica, usaram esses dados em um modelo computacional para prever e então simular como seria a extensão vocal do macaco.

Os resultados demonstram que um macaco do velho mundo, se tivesse capacidade neural para falar, não se pareceria precisamente com um humano, mas sua fala seria compreendida pelo ouvido humano. No exemplo, abaixo, uma simulação do macaco dizendo: “will you marry me?” (você quer casar comigo?).

Aqui mais uma simulação da fala humana para comparação:

A fala humana é produzida pela laringe, que é alterada pela posição de outros elementos anatômicos vocais, incluindo os lábios e a língua. Por exemplo, pense como seu rosto muda ao dizer as palavras em inglês “bat” e “bot”. Os macacos, sugere a pesquisa, têm esta mesma capacidade.

Os pesquisadores suspeitam que a presença de um trato vocal parecido com o humano em espécies antigas como os macacos do velho mundo sugere que outros primatas, incluindo outros símios como o chimpanzé, também o tenham. Pode ser uma boa ideia estudar os chimpanzés para ver se eles têm algumas redes neurais que seus primos macacos não têm, e comparar as diferenças com as dos humanos. Consequentemente, os primatas poderiam ser usados como modelos para entender o desenvolvimento inicial da fala humana e a evolução da fala humana.

“Agora ninguém pode dizer que é algo da anatomia vocal que limita os macacos de falarem — tem algo relacionado com o cérebro”, disse Ghazanfar em um comunicado. “Mesmo que esta descoberta se aplique apenas a macacos do velho mundo, ela ainda desmistifica a ideia de que a anatomia limita a fala em não-humanos. Agora, surge uma nova pergunta interessante: o que faz o cérebro humano tão especial?”

A resposta a essa pergunta pode não ser simples. A fala humana, junto com a capacidade de entendimento de uma linguagem, envolve um grande número de capacidades mentais, como a habilidade de converter um objeto ou um conceito em uma palavra, a aplicação da gramática e a capacidade de linguagem recursiva, na qual conceitos estão embutidos dentro de outros conceitos. Humanos e primatas têm uma série de coisas em comum, mas quando o assunto é uso da linguagem, nós claramente estamos longe deles.