Como você sabe, a teoria do Big Bang é a mais aceita atualmente para explicar a origem do Universo — e, portanto, de tudo o que existe. Sendo assim, parece um contrassenso que, originalmente, ela tenha sido proposta por um homem profundamente religioso. Um padre. Católico. Apostólico e romano!

Pois é, caro leitor, apesar de muita gente acreditar que Religião e Ciência não podem caminhar juntas, quem esboçou a teoria do Big Bang foi o belga Georges Lamaître, que, além de padre, era astrônomo e professor de Física na Universidade Católica de Louvain (1834 a 1968 — depois ela foi desmembrada e convertida em outras duas universidades), uma das instituições de ensino mais respeitadas da Bélgica.

Currículo notável

Lamaître nasceu em meados de 1894, e foi durante o ensino secundário em um colégio jesuíta que ele começou pensar em seguir a vida religiosa — e a desenvolver um forte interesse pela Ciência. Mas, antes de se tornar professor (e padre), ele serviu ao exército belga durante a Primeira Guerra Mundial, se formou em Engenharia Civil e concluiu um doutorado em Matemática.

Lamaître durante uma de suas aulas.

O belga só entrou para o seminário em 1923, depois de concluir os estudos e, após ser ordenado como padre, ele foi estudar Astronomia tanto na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, como na Universidade de Harvard e também no MIT — Massachusetts Institute of Technology —, ambas nos EUA. Aliás, foi nessa época que ele concluiu um segundo doutorado.

Estudos obscuros

Na verdade, as primeiras suspeitas de que o cosmos se encontra em expansão surgiram por volta de 1917, depois que Albert Einstein aplicou sua famosa Teoria Geral da Relatividade ao Universo como um todo.

Quando fez isso, o físico alemão percebeu que suas equações apontavam que o espaço estava se expandindo ou contraindo — e foi aí que ele incluiu a “constante cosmológica” à coisa toda para criar um modelo de Universo constantemente estático, imutável e do mesmo tamanho. Mais tarde, Einstein admitiu estar equivocado e, em 1922, foi a vez de o cientista russo Alexander Friedman retomar os cálculos do alemão e desenvolver suas próprias equações.

Então, em 1927, o padre católico resolveu publicar um estudo no qual apresentava suas próprias soluções para as equações de Einstein. Lamaître propôs que existe uma relação entre a distância de uma galáxia e o que na Física é conhecido como “desvio para o vermelho”, ou seja, a forma como as ondas de luz se comportam com relação à velocidade relativa entre uma fonte emissora (no caso, a galáxia) e um observador.

Basicamente, quanto mais distante uma galáxia se encontra de nós, mais a luz emitida por ela tende para o espectro do vermelho — ou baixa frequência —, e Lamaître argumentou que, em sua viagem até a Terra, a luz emitida por uma galáxia variava na mesma frequência que a expansão do cosmos. Além disso, segundo ele, quanto mais longa fosse a viagem feita pela luz, maior era a expansão do Universo e, portanto, maior era o desvio para o vermelho.

O padre apoiou suas conclusões em estudos de outros cientistas renomados, assim como em medições de distâncias de galáxias conduzidas por Edwin Hubble e Milton Humason, só que ninguém leu o estudo! No fim, Einstein aprovou os cálculos de Lamaître e, algum tempo depois, outros pesquisadores — entre eles, o próprio Hubble — chegaram às mesmas conclusões que o belga, mesmo sem conhecer seu trabalho.

Curiosamente, devido ao fato de a publicação de Lamaître não ser conhecida na época, quem acabou levando a fama anos mais tarde sobre a descoberta de que o Universo se encontra em constante expansão foi Hubble — tanto que a relação entre o desvio para o vermelho e a distância de uma galáxia ficou conhecida como “Lei de Hubble”.

No princípio não havia nada…

Lamaître não se deixou abalar pelo fato de suas publicações não serem incrivelmente populares na época e continuou desenvolvendo suas teorias. Então, em 1931, ele propôs que o Universo teria se originado a partir de um único quantum. Segundo o padre, o cosmos devia ser incrivelmente pequeno quando surgiu e que ele era uma coisa “finita” em seu nascimento.

Lamaître e o Papa Pio XII.

É claro que, em um primeiro momento, essa teoria — apresentada por um padre católico — foi recebida com um pouco de ceticismo pela comunidade científica. Afinal, a ideia de um início onde havia o nada era muito próxima do surgimento de tudo descrito na Bíblia. Para piorar, Pio XII, o Papa da época, usou a proposta de Lamaître para sair dizendo que ela confirmava a descrição da criação presente no livro Gênesis.

Lamaître negou as alegações do pontífice delicadamente, afirmando que sua proposta não passava de uma teoria científica. Mas a ideia dele decolou depois que Albert Einstein disse que se tratava da “mais bela e satisfatória explicação para a criação” que ele já havia ouvido. A teoria do padre católico genial só foi confirmada em 1964, com a descoberta da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, que nada mais é do que a radiação residual do Big Bang.

O padre só soube que sua teoria sobre a origem do Universo havia sido confirmada em 1966. Infelizmente, Lamaître estava no hospital se recuperando de um ataque cardíaco — e faleceu apenas duas semanas depois. O belga sempre defendeu suas ideias com convicção e fervor e nunca buscou fama pessoal. Ele recebeu vários prêmios e títulos em reconhecimento de seu trabalho e é prova de que Ciência e Religião podem ter uma relação de respeito mútuo.