As interfaces cérebro-máquina são fascinantes. Elas apontam para um futuro no qual você pensará em comandos e eles serão enviados para outras pessoas através de um computador. Um novo estudo nos aproxima mais desse futuro. Uma equipe de cientistas, liderada por Giulio Ruffini, conseguiu enviar uma mensagem do cérebro de uma pessoa na Índia para o cérebro de outra pessoa na França, a mais de 7.000 km de distância.

Como nota a Popular Science, o processo envolve diversos passos, mas não usa tecnologia de ponta: trata-se de software e hardware de neurorrobótica já criados nos últimos anos.

Na Índia, uma pessoa usa um capacete EEG (eletroencefalográfico), que mede a atividade elétrica do cérebro. Essa tecnologia, aliás, é a mesma usada pelo professor Miguel Nicolelis no famoso exoesqueleto da Copa. Mal comparando, o EEG grava uma orquestra do lado de fora da sala de espetáculo. Ele é menos invasivo, mas também é muito menos preciso. As outras tecnologias, muitas delas defendidas por Nicolelis, colocam chips nos cérebros das pessoas. São mais precisas, mas muito mais invasivas – afinal, você tem de colocar um chip no cérebro da pessoa. Nicolelis, aliás, já conectou cérebros de ratos com chips e fez com que eles trocassem mensagens via internet.

No experimento liderado por Ruffini, o capacete com EEG é conectado a um laptop, que exibe na tela um círculo branco em um fundo preto. A pessoa então move esse círculo usando a mente. Se ele for para cima e para a direita, isso corresponde ao valor 1; se for para o canto inferior direito, o valor é 0.

Isso serve para codificar palavras na cifra de Bacon. Criado pelo filósofo e cientista Francis Bacon em 1605, o sistema transforma cada letra do alfabeto em um código binário de cinco algarismos. Por exemplo:

A = 00000
B = 00001
C = 00010
D = 00011
E = 00100

… e assim vai. Portanto, se você move o círculo cinco vezes para o canto inferior direito (valor 0), você “digita” a letra A.

Após digitar a mensagem, ela é enviada através da internet. Ao chegar à França, ela foi levada a uma máquina de estimulação magnética transcraniana. Esta máquina consegue enviar impulsos magnéticos através do crânio das pessoas.

Esses impulsos fazem você enxergar lampejos de luz no ar, e um braço robótico mira em diferentes partes do seu cérebro para esses lampejos aparecerem em locais diferentes – acima e abaixo do horizonte, por exemplo. Isso é um sistema binário, tal qual a cifra de Bacon.

Assim, se o lampejo aparece em um lugar, trata-se do valor 0; se aparecer em outro, é o valor 1. A pessoa vai listando esses valores e decifra a mensagem. As palavras “hola” e “ciao” foram decodificadas com sucesso através deste método.

Sim, tudo isso é muito complicado, e provavelmente não vamos nos comunicar assim no futuro. Mas é um começo, e bastante promissor.

E ele pode ir ainda mais longe: nós falamos por aqui sobre um experimento no qual o dedo de uma pessoa era controlado pelo cérebro de outra pessoa. Imagine poder enviar mensagens e até comandos para alguém! É mais uma vitória para as interfaces cérebro-máquina.