Em setembro, foi publicado um estudo dinamarquês que encontrou uma correlação entre o uso do anticoncepcional hormonal e o diagnóstico de depressão. O estudo acompanhou o uso de anticoncepcionais e prescrições de antidepressivos por mais de seis anos em mais de um milhão de mulheres. Eles descobriram que as mulheres que estavam sob controle hormonal – seja ele a pílula ou DIU hormonal – foram significativamente mais propensas a usar antidepressivos.

Desde a notícia, muitas mulheres relataram estarem aliviadas que a ciência está finalmente se aproximando de suas experiências de vida. “Eu tinha usado a pílula durante dez anos”, diz Holly Grigg-Spall, autora do livro Sweetening the Pill (“Adoçando a Pílula”). “Uma das marcas, o Yasmin, tinha efeitos colaterais enormes – efeitos psicológicos, depressão, ansiedade, ataques de pânico. Eu demorei dois anos para me ligar que o que estava acontecendo comigo tinha a ver com a pílula”.

Pílulas anticoncepcionais são exibidas na França em 2013. O governo francês tenta limitar o uso deste método desde que uma mulher francesa teve um derrame cerebral por conta do Yaz em 2012. (Foto: Philippe Huguen/AFP/Getty Images)

O estudo encontrou uma forte correlação entre adolescentes tomando contraceptivos e a depressão: houve um aumento de 80% no risco de adolescentes que tomam anticoncepcionais começarem a tomar também antidepressivos. Esta estatística é particularmente preocupante, especialmente porque muitas garotas começam a tomar a pílula antes mesmo de se tornarem sexualmente ativas, às vezes para tratar a acne ou sintomas menstruais, ou apenas como uma medida preventiva. “Começar a tomar a pílula é visto como uma coisa essencial a se fazer”, diz Grigg-Spall. “É meio que um rito de passagem para as meninas”.

Embora possa ser o primeiro estudo desse tipo a dar destaque na relação entre os anticoncepcionais hormonais e a depressão, não é o primeiro a encontrar uma ligação entre este método contraceptivo e a mudança de humor. E é apenas o mais recente em uma longa batalha entre as mulheres e seus médicos sobre o controle de natalidade.

No início do século 20, a contracepção era ilegal na maioria dos estados americanos, e 26 deles proibiam as mulheres solteiras de terem acesso aos anticoncepcionais até a década de 1960. As mulheres ficavam muitas vezes à mercê de seu útero, resistindo a uma gravidez não planejada em seguida de outra. Uma solução comum era a histerectomia. “Nós fazíamos logo após o parto. Seis, sete semanas após o parto”, disse o Dr. Richard Hauskenecht, no documentário da PBS “American Experience: The Pill”. “Fazer uma histerectomia vaginal em alguém que teve três ou quatro filhos, seis semanas pós-parto, você tem duas opções: Ou você é muito rápido no procedimento, ou é melhor que o  banco de sangue esteja cheio, pois a perda de sangue será surpreendente. Era uma situação pré-histórica, absolutamente pré-histórica”.

O controle de natalidade hormonal foi iniciado por quatro pessoas: a ativista e educadora sexual Margaret Sanger, o biólogo Gregory Pincus, a sufragista e herdeira milionária Katherine McCormick, e o médico católico e ginecologista John Rock. Pincus descobriu que os animais injetados com a progestina não ovulam. Mas injeções frequentes não foram vistas como uma solução viável, então pensou-se no desenvolvimento de um contraceptivo oral. McCormick financiou o desenvolvimento da pílula do seu próprio bolso. Na década de 1950, Rock começou a usar cobaias, dando a pílula aos seus pacientes em Massachusetts sob o disfarce de um estudo de fertilidade. Ele não informou suas pacientes que a pílula foi projetada para impedi-las de ficarem grávidas. Muitas mulheres abandonaram o estudo pois não toleravam os efeitos colaterais: inchaço, coágulos de sangue (potencialmente fatais), e alterações de humor.

Margaret Sanger, fundadora da primeira clínica de aborto dos Estados Unidos.

A equipe começou a ter dificuldade em fazer testes clínicos nos Estados Unidos, em parte porque a contracepção ainda era ilegal na maioria dos estados e também por causa da alta taxa de abandono de seus estudos. Então Pincus e Rock decidiram ir para Porto Rico, onde por causa da preocupação com a superpopulação, não havia qualquer restrição do controle de natalidade – e o aborto era legalizado na ilha. Na verdade, muitas mulheres porto-riquenhas foram esterilizadas sem o seu consentimento – ou mesmo conhecimento – em um procedimento que foi popularmente conhecido como “La Operacion”, nos anos 1950 e 60. Pincus e Rock acreditavam que se as “pobres e iletradas” mulheres porto-riquenhas pudessem usar a pílula, qualquer uma podia.

No começo, Rock e Pincus novamente tiveram problemas para encontrar mulheres que tolerassem os efeitos colaterais da pílula. “As mulheres em Porto Rico desistiram do estudo também, então eles começaram a procurar mulheres que poderiam forçar a participar, tanto nos EUA como em Porto Rico”, escreveu a colunista Ann Friedman, para o The New Replublic. “Mulheres internadas em um asilo para doentes mentais em Massachusetts foram inscritas. Mulheres matriculadas em uma escola médica em San Juan foram informadas que tinham que fazer parte de um teste médico ou seriam expulsas”. Novamente, essas mulheres não foram informadas sobre o que a pílula seria; em vez disso, elas deveriam calar a boca, tomar os medicamentos, e se submeterem a exames médicos frequentes, invasivos”.

Eventualmente, a Dra. Edris Rice-Wray, diretora médica da Associação de Planejamento Familiar de Porto Rico, surgiu com uma nova estratégia: explicar para as mulheres o que a pílula fazia. Os assistentes sociais começaram a ir de porta em porta em conjuntos habitacionais em San Juan explicando que uma pílula poderia ser tomada diariamente para prevenir a gravidez. Uma vez que as mulheres foram informadas do que a pílula fazia, centenas se inscreveram voluntariamente. No entanto, essas mulheres não foram informadas de que elas eram parte de um teste clínico ou que o tratamento era experimental.

Após o estudo ser concluído, a Dra. Rice-Wray reportou à Rock e Pincus que a pílula tinha sido 100% eficaz na prevenção da gravidez. No entanto, 17% das participantes sofreram efeitos colaterais como “náuseas, tonturas, dores de cabeça, dores de estômago e vômitos”.

Três mulheres morreram durante o estudo e nunca passaram por uma autópsia para ver se a sua participação no estudo foi o que as levou à morte. A Dra. Rice-Wray concluiu que a pílula, pelo menos na forma e dosagem que foi dada às mulheres de Porto Rico, tinha muitos efeitos colaterais para ser aceitável.

Isso não impediu a empresa G.D. Searle & Co. (subsidiária da Pfizer) de lançar a primeira versão da pílula, o Enovid, usando a mesma fórmula que causou doenças em quase 20% das participantes nos testes. O Enovid continha 10 vezes a quantidade de hormônios necessária para prevenir a gravidez.

O anticoncepcional Enovid.

Aliás, Pincus tinha inicialmente pensado em criar uma pílula hormonal para homens. “Foi rejeitada pelos homens, devido ao número de efeitos colaterais”, diz Grigg-Spall, “incluindo encolhimento dos testículos”. Acreditava-se que mulheres iriam tolerar os efeitos colaterais melhor do que os homens, que diziam querer uma melhor qualidade de vida.

Em 1970, a jornalista Barbara Seaman escreveu o livro “O Caso dos Médicos Contra a Pílula“. O livro detalhou os muitos efeitos colaterais do Enovid, e ganhou a atenção do então senador Gaylord Nelson.

“O senador Nelson queria uma lei que garantisse o direito de conhecimento dos pacientes”, diz a diretora-executiva Cindy Pearson, da Rede Nacional de Saúde das Mulheres. A pílula foi o seu ponto de entrada para tornar a indústria farmacêutica mais transparente para os consumidores. Nelson convocou audiências no Senado em janeiro de 1970 para investigar a relação entre o uso da pílula e a diminuição da libido, depressão e coágulos de sangue. Nenhuma mulher foi convidada para falar nas audiências. Os membros do coletivo de Libertação das Mulheres de DC, liderado por Alice Wolfson, protestaram contra a falta de participação feminina nas audiências. “Deve-se admitir que as mulheres são cobaias excelentes”, disse Wolfson. “Elas não custam nada, alimentam a si mesmas, limpam suas próprias gaiolas, compram suas próprias pílulas, e ainda pagam o médico que as testa. Nós não vamos mais tolerar a intimidação dos deuses de jaleco branco que dirigem de maneira não-saudável as nossas vidas”, completou a ativista.

Marcha da Libertação das Mulheres de DC, em Washington, 1970.

As audiências resultaram na queda do uso de hormônios em contraceptivos orais, e a inclusão de um aviso de 100 palavras sobre os potenciais efeitos colaterais em cada pacote da pílula.

Embora agora seja normal ver aquela lista enorme de possíveis efeitos colaterais no final de um comercial de remédio, foram aqueles que lutaram pela transparência sobre a pílula anticoncepcional que nos garantiram o direito de conhecer os riscos daquilo que tomamos. Além disso, aqueles testes clínicos porto-riquenhos eticamente condenáveis ​​e profundamente racistas culminaram nos procedimentos que todos os estudos médicos devem usar hoje, onde o paciente é devidamente informado e deve dar seu consentimento.

Barbara Seaman e Alice Wolfson, as mulheres que se reuniram nas Audiências da Pílula do senador Nelson, passaram a ser a co-fundadoras da Rede Nacional de Saúde das Mulheres.

Hoje, Pearson reflete sobre a forma como o controle da natalidade hormonal moldou sua organização e sua missão. “Nós achamos que as mulheres devem ter acesso à todas informações que desejam ter, começando pelos anticoncepcionais”, diz Pearson. O novo estudo dinamarquês não mudou sua opinião sobre o anticoncepcional.

“O risco da depressão está sendo relatado desde que as mulheres começaram a usar os contraceptivos orais”, diz ela. O que mudou é que agora há dados para provar essa experiência de muitas mulheres. “Faz sentido biologicamente”, diz ela, “e acontece com mulheres há mais de 50 anos”.

Mas se as mulheres têm relatado a depressão como um efeito colateral de controle de natalidade hormonal durante 50 anos, por que só agora estamos obtendo dados concretos? “Uma grande parte do problema é a simples falta de interesse em questões de saúde das mulheres”, diz Grigg-Spall.

Pearson ficou muito entusiasmada com os dados do estudo dinamarquês. “Deus abençoe os escandinavos por terem saúde universal mantendo ótimas estatísticas!”, ela diz. “Ele fornece realmente boas indicações de coisas que podem ser mais investigadas.” Uma situação que precisa de uma investigação mais aprofundada: por que métodos com baixa quantidade de hormônio – como DIU e anel vaginal – estão mais relacionados com depressão do que anticoncepcionais com mais hormônios concentrados?

De acordo com Pearson, o objetivo de estudos como este é dar às mulheres a informação de que precisam para fazerem suas próprias escolhas sobre seus corpos e sua saúde. “Esta informação não deve ser escondida das mulheres pelo medo de que vão tomar uma decisão errada”, diz ela. “Confiem que as mulheres vão tomar boas decisões quando elas têm boas informações”.