O Instituto Karolinska, na Suécia, anunciou na manhã desta segunda, dia 3, o vencedor do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2016. A honraria foi para o biólogo japonês Yoshinori Ohsumi, de 71 anos. Atualmente professor do Instituto de Tecnologia de Tóquio, ele é o 23º cidadão nipônico a receber a homenagem — o sexto na área das ciências da saúde.

Ohsumi trabalha desde o início dos anos 1990 na compreensão de um processo que acontece em todas as células chamado autofagia. Essa é uma estratégia de sobrevivência, em que estruturas celulares internas redistribuem nutrientes num momento de necessidade e destroem organelas envelhecidas. A falha nesse mecanismo está relacionado a uma série de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer, além de câncer e diabete tipo 2.

O prêmio de 2015 foi para o estudo de algumas drogas que combatem doenças parasitárias

O M de Mulher conversou com a bióloga Natália Pasternak Taschner, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, para entender melhor a autofagia e qual a importância dela para nosso organismo:

O que é a autofagia?

De forma breve, ela é a capacidade da célula de se autodigerir. Durante muito tempo, acreditou-se que as células usavam esse processo como um sistema de lixo. Todos os restos celulares, bacterianos ou virais eram internalizados em estruturas conhecidas como fagossomos e, posteriormente, destruídos. Porém, trabalhando com células de levedura, o professor Ohsumi conseguiu identificar 15 genes responsáveis pela regulação deste processo e descobriu que ele vai muito além de uma simples reciclagem. A autofagia é regulada como uma resposta à escassez de alimentos e diversos tipos de estresse que acometem as células. É por meio da autofagia que a célula consegue gerar energia e as moléculas necessárias para sua sobrevivência.

Quais são as principais atuações da autofagia dentro das nossas células?

Ela é importante para a reciclagem de proteínas, a renovação celular e a formação dos embriões, além do papel de lidar com restos bacterianos e virais que ficam na célula após infecções. A autofagia ainda é essencial para eliminar proteínas e organelas danificadas, que podem estar envolvidas no processo de envelhecimento e em doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer. Falhas no processo de autofagia já foram relacionadas também com diabete tipo 2 e câncer. Trata-se de um processo de regulação fina e reciclagem de componentes celulares.

Qual a importância de homenagear as descobertas sobre a autofagia com um Prêmio Nobel?

Vale a pena ressaltar que esse estudo começou como uma pesquisa básica, daquelas que ninguém sabe pra que serve. O professor Ohsumi disse em entrevista que não tinha paciência para áreas muito competitivas e queria pesquisar algo que ninguém mais estivesse estudando. Acho importante chamar atenção para a ciência básica: quando ele começou a investigar esse processo em vacúolos de leveduras, não pensava em doenças neurodegenerativas. Estava apenas curioso em desvendar como funciona um processo celular.