Registro da revolta de Stonewall: polícia prendia quem era diferente.

Entre os gays tem sido cada vez mais disseminado o uso de aplicativos de relacionamento com o Grindr, o Scruff, o Hornet e afins. Dia desses, navegando por um deles, deparei-me com a seguinte mensagem: “Straight Acting Only”. Ou seja: o dono de tal perfil só queria ser procurado por rapazes que parecessem heterossexuais. E, qual não foi minha surpresa ao me deparar com vários outros perfis replicando a mesma mensagem?

Num documentário dirigido por Martin Scorcese, a diretora Fran Leibowitz faz uma analogia para lá de pertinente para os dias atuais. Diz ela: “Nos anos 60, os homossexuais fugiam das forças armadas e pregavam o sexo livre. Hoje, querem entrar no Exército e buscam o casamento. Sério?”. É, de fato, um sinal de que vivemos tempos mais conservadores. E tem tudo a ver com a tal mensagem exibida no app. Dissecando ela, não é difícil entender o que pressupõe: “acting”, em inglês, quer indicar um verbo de ação, mas também significa atuar, fingir, como fazem os atores. Não é nem um pouco impossível, portanto, deduzir que o tal rapaz buscasse alguém que seja gay, sim, mas que finja que é hetero. Em outras palavras, é bem provável que ele tenha vergonha do que é.

Não são poucos os perfis no Grindr que segregam homossexuais. A grande maioria diz “Não aos afeminados” e usa até mesmo o argumento do “Nada contra, apenas não curto” tão usado pelos preconceituosos para se referir à parcela gay da população. Da mesma maneira, há os ainda mais xiitas, que usam frases como “Odeio quem mia”, “Se quisesse afeminados curtiria mulheres” ou estende suas restrições a critérios de raça, status social, físico ou até mesmo cultural. Não muito longe de minha casa, há um rapaz que usa em sua descrição: “Não a quem curte Madonna”. Outros afirmam que não curtem negros, gordos, asiáticos, nordestinos, quem mora no Centro ou na Zona Leste. A mim, tamanha segregação beira o nazismo, que separava as pessoas em grupos – especialmente judeus e homossexuais – e os tirava da vista. Isso quando o ódio não é dirigido a si mesmo: há quem escreva “Odeio passivos”. Obviamente, tal pessoa deve ter a mesma preferência sexual e deve esquecer que para um ativo precisa existir um passivo e vice-versa. Ou ele não deve aguentar se olhar no espelho.

Este tipo de pessoa parece esquecer de um fato inexorável: o fato de hoje em dia existirem aplicativos como o Grindr ou casais homossexuais poderem andar de mãos dadas em determinadas cidades deve-se única e exclusivamente aos tais “gays afeminados”, os fora do padrão. Na revolta de Stonewall, marco da militância GLBT, ocorrida em 1969, no Estados Unidos, quem bateu de frente com a polícia foram as “fairies”, “sissies”, lésbicas e travestis. Nenhum “straight acting only” se atreveu a sair do armário e enfrentar os cassetetes. E isto está relatado em livros, como “Stonewall”, de David Carter. É, no mínimo, estúpido, seguir relegando quem foge do que é considerado “padrão” a guetos sociais.

O fato de que gays e lésbicas lutam para ter os mesmos direitos – nem mais, nem menos – que o hetorossexuais não significa que necessariamente a heteronormatividade tenha de ser usada como regra. O que me parece é que os tais “straight acting only” têm tanta vergonha de assumir que fazem parte de um grupo distinto que procuram desesperadamente se enquadrar na ala conservadora. No fundo, isso é medo de ser quem é. Gays que, mesmo assumidos, seguem no armário. Terapia neles. Não dá para conceber que entre os homossexuais exista tamanho fundamentalismo.

Além do que, vamos combinar, todos estes programas têm botões que bloqueiam pessoas que não te atraiam. Não é mais fácil limpar a timeline que ficar vomitando preconceitos por aí? Eu morreria de vergonha de expor meu (mau) caráter assim, para todos.