Em pleno regime militar, quando ainda havia delegacias de costumes, na capital de um Estado tido como machista, eles ousaram encarar o preconceito, ajudaram o Grêmio e até o Corinthians a superar longos períodos de jejum de títulos e levaram a diversidade aos estádios de futebol.

Eram poucos, estima-se que de 60 a 100, mas chamavam a atenção pelos trajes, quase sempre túnicas nas cores azul, branco e preto, pela irreverência e por incentivarem o time durante os 90 minutos, atitude rara entre os demais frequentadores do estádio Olímpico nos anos 1970. E se tornaram a mais visível torcida organizada homossexual de um clube, em história que o jornalista Léo Gerchmann registrou no livro Coligay Tricolor e de Todas as Cores.

O lançamento da obra, editada pela Libretos, está marcado para às 19 horas desta terça-feira (13 de maio) na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre, com sessão de autógrafos e presença de alguns protagonistas, inclusive jogadores que chegaram a torcer o nariz para a “novidade” e hoje reconhecem o apoio contínuo da Coligay como decisivo para as vitórias do Grêmio.

O ano em que tudo mudou foi 1977. Cansado de oito anos de fracassos no campeonato gaúcho e incomodado com os dois títulos brasileiros que o rival Internacional havia conquistado em 1975 e 1976, o Grêmio mudou a filosofia, contratou Telê Santana como técnico e jogadores de personalidade vencedora e inegáveis recursos técnicos, como o zagueiro Oberdan, o meia Tadeu Ricci, o centroavante André e o então promissor ponteiro-esquerdo Éder, mantendo no elenco nomes identificados com o clube, como o zagueiro Ancheta, o meia Iúra e o atacante Tarciso, todos sedentos por se livrarem da imagem de perdedores.

A conquista do campeonato gaúcho daquele ano foi um alívio e a nova mentalidade serviu de base para o que viria depois. O Grêmio voltaria a ganhar o título regional em 1979 e 1980 e se tornou campeão brasileiro de 1981, da Libertadores e mundial em 1983. Concidentemente, a Coligay acompanhou exatamente aqueles sete anos de bons resultados e deixou de ser vista nos estádios logo depois porque seu líder, Volmar Santos, se mudou de Porto Alegre para Passo Fundo.

Volmar era dono da boate Coliseu, um ponto de encontro de homossexuais de Porto Alegre, e juntou o nome da casa noturna com a palavra gay para batizar a torcida. “Ele quis dar uma sacudida e formou um grupo que apoiava o time o tempo todo”, lembra Gerchmann. Enquanto quase todo o estádio silenciava e, depois de dois passes errados, passava a murmúrios de desaprovação que enervavam o time, a Coligay não parava sua batucada e nem com suas coreografias e gritos durante os 90 minutos. Outros torcedores se mostravam incomodados com a presença daquela diminuta e alegre turma. Os jogadores não falavam no assunto. “Mas hoje eles reconhecem que aquele incentivo fazia toda a diferença”, relata o jornalista.

Integrantes da Coligay, vestindo a característica túnica branca, azul e preta, em 1977. (Foto: Arquivo Placar)

A visibilidade e a duração da Coligay acabaram tornando a torcida uma referência. À época falava-se de tentativas semelhantes como a Flugay, do Fluminense, a Raposões Independentes, do Cruzeiro, e, pouco tempos depois, a Flagay, do Flamengo, mas nenhuma se notabilizou e se manteve por tanto tempo como a dos gremistas.

“Minha intenção foi escrever sobre a quebra de paradigmas e como a Coligay levou a diversidade aos estádios”, revela Gerchmann, que contextualiza a trajetória da torcida aos costumes e aos movimentos culturais e políticos da época. De 1977 para cá muita coisa mudou entre as torcidas. As poucas mulheres que se arriscavam a ir ver jogos ouviam ofensas. Hoje são público crescente e aceito.

Mas ainda há mazelas como gritos racistas, rejeição aos homossexuais e violência entre torcidas organizadas que merecem o repúdio do autor, que se diz um entusiasta da diversidade e da evolução dos costumes. Apesar disso, no próprio livro o jornalista se obriga a reconhecer que “a luta contra a homofobia parece estar longe de ser vencida neste Brasil do terceiro milênio”. “Eles foram muito corajosos porque surgiram em uma época de repressão”, afirma Gerchmann. “Era uma torcida que nunca se envolvia em confusão e sempre apoiava o time”.

Corinthians

Quando o Grêmio deixou para trás oito anos de agruras, o Corinthians lutava para não chegar a 23 anos sem conquistar qualquer título. O livro recorda que, pouco depois da vitória tricolor no Rio Grande do Sul, o então presidente do Corinthians, Vicente Matheus, convidou a Coligay para ir a São Paulo torcer pelo time na final do campeonato paulista, contra a Ponte Preta.

O folclórico dirigente dizia acreditar que a torcida gay gremista daria sorte a seu time. Pagou as passagens e 20 integrantes da Coligay se instalaram nas arquibancadas do Morumbi, vestidos de gremistas, conforme estabelecia o acordo. No final do jogo, Basílio marcou o gol da vitória. Matheus tinha razão. A Coligay, que quebrava paradigmas, também era pé-quente nas superstições do futebol.