Foi aprovado dia 24 de setembro com 17 votos favoráveis, e apenas 5 contrários, o projeto de lei que define a família como a união entre um homem e uma mulher.

Fico completamente feliz em saber que nossos deputados gastaram cinco preciosas horas discutindo sobre a definição do conceito de família. Isso deve querer dizer que não há crise, corrupção, desemprego, arrastões. Que alívio, eu achava que a coisa estava feia por aqui. Veja só, estava enganada.

Antes de mais nada, me pergunto que importância isso tem. Qual a real representatividade dessa definição?

Família é a união entre um homem e uma mulher? Para quem mesmo? Essa definição te representa? A mim, não. De jeito nenhum. Aliás, não representa muito mais do que a metade das famílias brasileiras.

Família com duas mães.

Então se eu ficar viúva, não sou mais família? Se me separo, acabo com a família? Se engravido e meu marido, contrariado, vai embora e me abandona? Não sou família?

Essa definição torpe, rasteira e preconceituosa me causa vergonha alheia. Deputados gastaram nosso suado dinheiro para discutir cinco horas sobre isso? Fala sério! Nunca assistiram Lilo e Stich? Tão simples:

Família é Ohana. Ohana quer dizer nunca abandonar ou esquecer.

Já vi um homem e uma mulher matarem seus filhos. Torturarem, enlouquecerem, abandonarem crianças. Já vi casais homo afetivos, muito carinhosos, formarem famílias bem afetivas e estruturadas.

Sabem o que é família de verdade, deputados? Família é aquela avó velhinha para quem sobraram os netos porque o pai não assumiu e sumiu. E a mãe fugiu com um homem novo. Família é dois pais ou duas mães. Um monte de tio junto, uma madrinha chamada de dinda. Uma mãe e sua irmã.

Família com só uma mãe.

Família é quem tem amor. Quem te acolhe. Quem lava e passa sua blusa branca de uniforme. Família é colo. Ombro para chorar. Família é tudo junto e misturado. Às vezes, tudo junto e espalhado. Família é o que puder ser. Porque família é amor. E amor é como água, deu uma frestinha, ele embrenha, entra e se infiltra e se instala e faz ninho.

Família é seiva. Corre dentro da gente para sempre. Mesmo que só sobre um único sobrevivente, nele há uma família. Para sempre. Bordada em memória e afeto. Em modelos para seguir ou fazer diferente.

Família é para sempre. É lembrança fazer de rir ou chorar. É estofo, recheio. É raiz, tronco e fruto. De onde se parte, para onde se volta. Para comemorar vitórias ou chorar derrotas. Luz para onde se corre quando tudo é breu.

Família é brinquedo de Lego. Cada uma com sua montagem, suas peças, suas cores próprias. Não há duas iguais. E, de perto, nenhuma é perfeita.

Família com dois pais.

Famílias não surgem de óvulo, esperma e barriga. Surgem do coração. As melhores são elásticas, vão crescendo cada vez mais. Agregam enteados, namorados, ex, atuais, amigos e se tornam árvores frondosas, cheias de galhos. Dão sombra.

Família é briga, confusão e desacordo. Lágrimas, luto e festa. Família é afeto. Afeto não tem cor, raça, nem sexo. Afeto apenas afeta a todos os que se dispõem a amar sem limites, para sempre, sem nunca abandonar ou esquecer. Ohana. Só isso. O resto? Só dinheiro público jogado fora por quem não tem mais o que fazer.