Islândia é o país com o índice mais alto de igualdade de gênero do mundo, de acordo com o ranking do Fórum Social Mundial de 2015.

O Índice Mundial de Desigualdade de Gênero analisa a desigualdade entre homens e mulheres levando em conta quatro categorias: Participação Econômica e Oportunidade, Realização Educacional, Saúde e Sobrevivência e Empoderamento Político. Como base de comparação, o Brasil está na 85ª posição entre os 145 países da lista.

A Islândia ocupa o primeiro lugar desde o ano 2000, e tudo indica que continuará no topo da lista no próximo ano. A classificação não é casual: é fruto de batalhas históricas das mulheres islandesas e de suas conquistas na participação política.

40 anos depois, a Islândia tem uma lista extensa de políticas públicas que contribuem para a diminuição da desigualdade de gênero. São elas que tornam o país o melhor lugar do mundo para ser mulher.

O ponto de virada

Em 1975, milhares de islandesas saíram às ruas pedindo direitos iguais aos dos homens. os resultados começaram a vir poucos anos depois. (Foto: Divulgação/Women’s history archives)

O episódio que mudou para sempre a maneira como os direitos das mulheres islandesas eram considerados pelo Estado aconteceu em 1975. No dia 24 de outubro daquele ano, as islandesas entraram em greve. Durante um dia, 90% das mulheres do país se recusaram a fazer qualquer tipo de trabalho: de seus empregos formais a cozinhar, fazer tarefas domésticas ou cuidar das crianças.

Em vez disso, jovens, idosas e crianças foram às ruas exigindo igualdade de direitos. A greve congelou a economia do país por um dia. Bancos, escolas e hospitais fecharam, crianças lotaram os escritórios e locais de trabalho – já que os pais não tiveram escolha a não ser levá-las junto – e salsichas, fáceis de cozinhar, desapareceram das prateleiras dos supermercados.

“Eu tinha 10 anos na época e me lembro muito claramente, eu lá com a minha mãe, lutando. Ainda lembro da multidão e do poder que ela emanava. A grande mensagem foi que se as mulheres não trabalharem, a comunidade toda paralisa – a sociedade toda.”

Thordis Loa Thorhallsdottir CEO de uma empresa de turismo na Islândia, em entrevista ao jornal “The Guardian” em 2016.

O dia ficou conhecido como “A longa sexta-feira” e os resultados da mobilização se refletiram na política em poucos anos. Em novembro de 1980, Vigdis Finnbogadottir, uma mãe solteira divorciada, foi eleita para a presidência do país. Ela foi reeleita duas vezes depois disso.

Como resultado da movimentação em 1975, também foi criado um partido político, o Aliança Feminina, que elegeu suas primeiras representantes para o parlamento em 1983. Em 2009, o país elegeu pela primeira vez uma primeira-ministra – a primeira chefe de governo abertamente lésbica do mundo.

A Islândia para mulheres hoje

Os critérios do Índice Mundial de Desigualdade de Gênero do Fórum Social Mundial levam em conta para classificação a diferença de oportunidades e direitos entre homens e mulheres. Isso não significa que a Islândia é um país em que mulheres têm mais direitos do que os homens – mas que é o país onde há mais proximidade entre os direitos e oportunidades delas e deles.

Na Islândia, 80% das mulheres trabalham. Também graças às cotas de gênero, hoje quase metade das diretoras de empresa são mulheres. Além disso, mulheres perfazem 65% das vagas universitárias e 41% dos cargos no parlamento.

A prioridade do governo com políticas de igualdade de gênero continuou mesmo durante a crise econômica que atingiu o país em 2008. No começo de 2009, o parlamento islandês criou uma força-tarefa para monitorar o impacto da crise na desigualdade entre homens e mulheres – e se comprometeu a garantir que as medidas tomadas para recuperar a economia levassem em conta princípios de igualdade de gênero.

Uma das mudanças mais recentes na legislação que mais impactou a igualdade de gênero no país foi o estabelecimento de licença parental remunerada para pais e mães. Cada um deles pode ficar em casa por três meses depois do nascimento dos filhos, e tem outros três meses também remunerados para dividirem entre si como quiserem.

Hoje, 90% dos pais islandeses escolhem tirar licença paternidade. O resultado é que mulheres que foram mães voltam a trabalhar mais rápido e com mais eficiência, e homens têm a oportunidade de se envolverem igualmente – desde o início – na criação dos filhos.

Um relatório de 2012 do Centro para Igualdade de Gêneros da Islândia, um órgão governamental, resume as conquistas pela igualdade de gênero no país nas últimas décadas.

Linha do tempo das conquistas mais importantes pelo direito das mulheres na Islândia

  • 1920 – Sufrágio universal para mulheres e direito de se candidatar a cargos políticos
  • 1922 – Primeira mulher eleita para representante no parlamento
  • 1926 – Primeira tese de mestrado defendida por uma mulher na Islândia
  • 1961 – Parlamento aprova lei que determina igualdade de salário para homens e mulheres
  • 1980 – A primeira mulher presidente no mundo é eleita na Islândia
  • 1999 – Mais de um terço das cadeiras do parlamento foram ocupadas por mulheres
  • 2000 – Parlamento aprova licença parental de 3 meses, não transferível, para pai e mãe, além de outros três meses que podem ser divididos pelo casal
  • 2008 – São estabelecidas cotas para diretoria em órgãos públicos municipais ou federais: é obrigatório que haja a maior igualdade possível na direção desses órgãos, e se houver pelo menos 4 cadeiras, a cota mínima de distribuição entre os gêneros precisa ficar em 40/60
  • 2009 – Primeira-ministra é eleita
  • 2009 – Islândia proíbe prostituição, propaganda do gênero ou qualquer tipo de benefício da atividade, como cafetinagem
  • 2010 – Clubes de striptease são proibidos no país
  • 2010 – Cotas para empresas privadas com mais de 50 funcionários: é obrigatório que a igualdade seja a maior possível nos cargos de diretoria e, se houver mais do que 4 cargos de direção, a distribuição não pode ser mais desigual do que 40/60
  • 2011 – Parlamento aprova lei que permite que homens ou mulheres perpetradores de violência doméstica sejam removidos do lar

As mulheres islandesas ainda têm campos para conquistar, no entanto. A diferença salarial ainda existe – homens ganham 14% mais, em média – e eles ainda ocupam 78% dos cargos de gerência, por exemplo.