Menina foi baleada pelos talibãs por defender o direito de ir às salas de aula.

Para boa parte do mundo ocidental, ela meio que “nasceu” no dia 9 de outubro do ano passado. Foi nessa data que a paquistanesa Malala Yousafzai, 16 anos, foi baleada no rosto, quando ia para a escola, em um ônibus, por ordem da milícia Talibã.

No dia seguinte, a garota estava nas manchetes de sites e noticiários de todo o planeta. E nas semanas que se sucederam, já num hospital da Inglaterra, Malala recebia mensagens de chefes de estado e astros. “Beyoncé me escreveu um cartão (…) Madonna dedicou-me uma canção. Havia até uma mensagem de minha atriz favorita e ativista social, Angelina Jolie – eu mal podia esperar para contar a Moniba”.

O trecho está no livro “Eu Sou Malala – A História da Garota Que Defende o Direito à Educação e Foi Baleada pelo Talibã” (Companhia das Letras, 344 páginas), assinado pela própria Malala junto à jornalista Christina Lamb. E a citada Moniba vem a ser a melhor amiga da menina que, desde aquele dia, coleciona feitos como discursar na ONU, ser capa da edição da Time dedicada às 100 pessoas mais influentes do planeta e se encontrar com líderes e artistas como Bono Vox (U2) e a rainha da Inglaterra.

A repercussão do atentado fez com que a causa defendida por Malala, e que tanto irritou o Talibã, fosse conhecida em todos os quatro cantos – o que acabou provocando ainda mais estupor. Malala começou a irritar os talibãs ao questionar (entre outras coisas) o porquê de as meninas serem criticadas – e muitas vezes impedidas – de frequentar escolas. Sua voz reverberou ainda mais quando aceitou o desafio de escrever um diário sobre sua vida para a BBC. Para tanto, adotou um pseudônimo, Gul Makai (heroína do folclore patchun, povo ao qual a família de Malala pertencia).

São detalhes como esse que fazem do livro “Eu Sou Malala” uma boa leitura. Através do repassar de sua vida do nascimento à adolescência, saltam curiosidades como o gosto por Justin Bieber e pela saga “Crepúsculo”, assim como o impacto que o livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho, provocou na menina.

Ao mesmo tempo, não é preciso ser um profundo conhecedor de psicologia para deduzir porque uma menina crescida em um lugar (Mingora) que, apesar de descrito por ela como paradisíaco, era nitidamente pouco propício ao florescer intelectual de uma representante do sexo feminino; acabou angariando tanto estofo – muito antes do tiro, ela já era figura carimbada concedendo entrevistas.

O pai de Malala é apresentado como um homem extremamente culto, autor de poesias e fluente no inglês, o que certamente contaminou a garota. Do livro vale citar, ainda, a narrativa referente aos cuidados médicos logo após o tiro, o que incluiu duas transferências – uma, de país – e decisões difíceis, como a de abrir a calota craniana da menina, tomando o cuidado de preservar o pedaço do revestimento retirado na própria barriga de Malala.