As tartarugas que costumam botar seus cobiçados ovos nas areias da bacia do Amazonas, bem como dezenas de outras espécies de tartarugas fluviais espalhadas por três continentes, acabam de ganhar uma “tia-avó” de 125 milhões de anos.

Parte do esqueleto fossilizado da criatura, batizada de Atolchelys lepida por seus descobridores, foi encontrado numa pedreira de São Miguel dos Campos, em Alagoas, a cerca de 60 quilômetros de Maceió.

Trata-se do mais antigo membro das chamadas Pleurodira, um dos dois grandes grupos nos quais se dividem as tartarugas atuais.

Para ser mais exato, a A. lepida é um cágado, ou seja, uma tartaruga de água doce (há ainda os jabutis, totalmente terrestres, e as tartarugas-marinhas).

A pedreira onde o bicho foi encontrado é conhecida há tempos por seus fósseis de peixes, motivo que levou a pesquisadora Valéria Gallo, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), ao sítio alagoano em questão.

Após a descoberta, o trabalho de descrição da espécie foi coordenado por Pedro Romano, zoólogo e paleontólogo da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais.

O fóssil reúne preservados o crânio, a mandíbula e o plastrão (a “barriga” da carapaça das tartarugas), entre outros elementos.

De tamanho modesto (uns 20 centímetros), o bicho provavelmente vivia num lago, com quantidade relativamente baixa de oxigênio. A hipótese é de que seu hábitat era provavelmente um ambiente com condições sazonais, ou seja, com variações ao longo do ano, afirma Romano.

“A anatomia é muito parecida com a dos cágados atuais. Provavelmente era um animal onívoro, com preferência por peixes de pequeno porte ou então por invertebrados com concha”, afirma o pesquisador.

Supercontinente

Os parentes da A. lepida acabaram se espalhando também pela África e pela Austrália. É provável que os bichos tenham colonizado todas essas regiões quando elas ainda estavam juntas num único supercontinente, conhecido como Gondwana.

Mais tarde, conforme os pedaços dessa massa de terra foram se separando até formarem os continentes atuais, os cágados seguiram caminhos evolutivos separados e acabaram dando origem às espécies que vemos hoje.

A descrição do novo fóssil de tartaruga foi publicada em artigo na revista científica britânica “Biology Letters”