Página da edição de 27/04/1983 da revista Veja, onde foi divulgada a tão estranha notícia do “boimate”. (Foto: Reprodução)

A edição de 27/04/1983 da revista Veja trouxe uma matéria que prometia abalar o mundo da ciência. Segundo eles, dois biólogos alemães conseguiram, após anos de pesquisa, fundir células animais com células vegetais. O experimento teria sido realizado com a junção de células de um tomateiro e células de um boi. O resultado, segundo a revista, foi um fruto como o tomate, porém revestido de uma casca bem mais resistente. Sua polpa era bem mais nutritiva que os tomates normais, com 50% de proteína animal e 50% de proteína vegetal. Nascia o “boimate”, um verdadeiro marco na biologia molecular! Segundo própria publicação, já poderíamos sonhar com um tomateiro onde pudéssemos colher “algo parecido com um filé ao molho de tomate”!

A revista só não esperava estar cometendo um dos equívocos mais vexatórios de sua história. Para redigir a matéria sobre os “boimates”, a revista Veja se influenciou pela matéria originalmente publicada na revista inglesa New Scientist. A revista inglesa, por sua vez, havia publicado a matéria sobre os “boimates” semanas antes, para sua edição que circularia em 1º de abril, dia da mentira, um costume normal da mídia inglesa de pregar peças nessa data.

Não só a revista Veja, mas vários outros veículos de comunicação pelo mundo difundiram a novidade dos “boimates” como algo verídico (o assunto foi até tema de discussão no senado norte-americano).

Como se não bastasse ter acreditado no conto do fruto dos biólogos McDonald e Wimpey (alusão às redes norte-americanas de fast-food McDonalds e Wimpy’s), que curiosamente trabalhavam em Hamburgo, a revista Veja chamou Ricardo Brentane, engenheiro genético da USP, que também embarcou na onda dos “boimates”.

Após cartas e mais cartas de leitores que debochavam da publicação, a revista publicou um editorial em sua edição de 6 de julho em que admitia ter cometido um “lastimável equívoco”.

A famosa matéria dos “boimates” foi feita por Eurípedes Alcântara, hoje diretor editorial da revista Veja.