Por quase cinco anos, o grupo militante islâmico Boko Haram tem promovendo uma violenta rebelião no nordeste da Nigéria. O combate já matou mais de 4.000 pessoas, desabrigou outras 500.000 e destruiu centenas de casas e escolas.

(Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP/Getty Images)

A Nigéria, um país rico em petróleo na África ocidental, ganhou independência da Inglaterra em 1960. Sobre o domínio colonial, o desenvolvimento foi centralizado principalmente no sul do país. Os efeitos do abandono da região norte afeta a vida das pessoas até hoje.

Localização da cidade de Chibok, no estado de Borno, local do rapto de mais de 300 meninas estudantes. (Imagem: J-M.Cornu/J. Jacobsen/AFP)

Hoje em dia, os nigerianos são mais pobres do que na época da independência, de acordo com o International Crisis Group. Serviços do governo como eletricidade, ruas, segurança, água, saúde e educação são inexistentes para a maioria, especialmente no norte.

Um homem caminha próximo a ônibus queimados, após o ataque de dois homens-bomba em 19 de maio de 2013. (Foto: AFP/Getty Images)

A contínua corrupção no governo, impunidade dos policiais e conflitos locais continuam a enfraquecer o esforço por reformas no país. O presidente nigeriano Goodluck Jonathan já admitiu informalmente saber da infiltração do grupo Boko Haram no governo.

“A menos que o governo federal e estadual – e a região como um todo – desenvolvam e implementem planos para combater não só a insegurança, mas também as injustiças que geram a maioria dos problemas, o Boko Haram, ou grupos similares, vão continuar a desestabilizar grandes partes do país”, concluiu o International Crisis Group em um relatório em 3 de abril. (Foto: Issouf Sanogo/AFP/Getty Images)

E o Boko Haram – que significa algo como “educação ocidental é proibida” – prospera nessas circunstâncias. O grupo quer estabelecer um estado Islâmico no norte. Eles acusam o governo nigeriano de serem “falsos muçulmanos”.

O significado de Boko Haram é um pouco mais complicado. Leia mais aqui. (Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP)

A história do grupo segue disputada. O carismático nigeriano Mohammed Yusuf fundou o Boko Haram em 2002. Ele tinha apoio declarado de alguns políticos. Yusuf foi também o mentor do atual líder, o violento Abubakar Shekau.

Imagem retirada de um vídeo liberado pela AFP em 5 de maio mostra Abubakar Shekau em um discurso de quase uma hora de duração. (Imagem: Ho/Boko Haram/AFP)

A polícia já deteu e interrogou Yusuf várias vezes, mas nunca o prendeu, pois oficiais influentes interviram a seu favor. Yusuf também teve suporte financeiro de outros extremistas do Salafi, como Osama Bin Laden.

Nigerianos se revoltam no local de um ataque do Boko Haram com explosivos a uma igreja em 2011. (Foto: AP Photo/Reuters/Afolabi Sotunde)

Com o tempo, Yusuf e o Boko Haram se radicalizaram, se tornando alvo do governo nigeriano. Ao mesmo tempo, o grupo ganhou popularidade por denunciar falhas e corrupção no governo e por auxiliar a juventude desempregada.

Seis suspeitos de serem membros do Boko Haram em julgamento em Abuja em 2011. (Foto: Dele Jo/AP Photo)

Então em 2009, uma série de confrontos entre o Boko Haram e a polícia nigeriana acabou gerando uma luta armada contra o governo no norte. A princípio, as tropas nigerianas derrotaram o Boko Haram e mataram centenas. Também prenderam e depois executaram Yusuf.

Destroços da sede do Boko Haram, destruída pela polícia em 2009. (Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP/Getty)

Mas a resposta militar do governo só impediu o Boko Haram momentaneamente, que começou a trabalhar por trás dos panos. Em 2010, o grupo começou uma retaliação por causa da ação de 2009 com ataques à polícia e o exército, usando inclusive homens-bomba.

(Foto: Flickr/jujufilm)

Nos anos seguintes, o Boko Haram intensificou sua campanha de terror para atacar cristãos, clérigos muçulmanos, líderes locais, as Nações Unidas, trabalhadores da saúde, bares e escolas – e para sequestrar e escravizar garotas. O governo costuma negar os ataques.

Mercado destrído por homens do Boko Haram, em 29 de abril de 2013. (Foto: Afolabi Sotunde/Reuters)

Na última primavera, o presidente Goodluck Jonathan declarou estado de emergência nos redutos do Boko Haram, dando mais poder ao governo federal. Tropas foram enviadas, e com ajuda de grupos locais, expulsaram o Boko Haram de muitas cidades e vilarejos.

(Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP/Getty)

E novamente a resposta militar não parou a violência. Quando os militares se retiraram, o Boko Haram cresceu, atacando civis sem nenhum pudor. Sitiaram cidades, queimaram vilarejos e sequestraram crianças, além de ataques com bombas.

(Foto: Stringer/Reuters)

Em novembro, a Human Rights Watch reportou que o Boko Haram estava sequestrando e estuprando garotas no norte. E também documentou o uso de crianças como soldados armados. Testemunhas contaram à HRW que os ataques se intensificaram depois que o estado de emergência foi declarado.

Uma jovem estudante em uma sala de aula incendiada pelo Boko Haram em 12 de maio de 2012. (Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP/Getty)

Os nigerianos têm criticado o governo por ter falhado na luta contra o Boko Haram, e por problemas em grande-escala de subdesenvolvimento e corrupção. A polícia então prendeu pessoas que não tinham nenhum envolvimento com o Boko Haram, aumentando a ira da população.

(Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP/Getty)

Explorando a política omissa e a falta de segurança, alguns membros do Boko Haram dispersaram para o Camarões e o Níger, onde as autoridades também são pouco equipadas para combater o grupo radical armado, o que gerou queixas dos países vizinhos.

(Foto: Stringer/Reuters)

Em 14 de abril, um bomba mortal devastou uma estação de ônibus em Abuja, matando ao menos 71 pessoas. Foi o pior ataque terrorista na capital, e todos os indícios apontaram para o Boko Haram. Na mesma semana, o Boko Haram matou 64 pessoas no norte do país.

(Foto: AP Photo/Sunday Alamba)

Por volta da meia-noite, o Boko Haram atacou de novo. Homens armados mascarados invadiram uma escola para meninas em Chibok, na área rural do nordeste da Nigéria. Eles usavam a vestimenta do exército nigeriano, ordenando que as meninas entrassem em caminhões, e se refugiaram em uma floresta próxima.

Crianças em Baga, uma outra cidade no estado do Borno, onde as meninas vivem, logo após um ataque do Boko Haram a um ano atrás. (Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP/Getty)

As notícias se espalharam devagar, em meio às declarações conflitantes do governo. Em 16 de abril, um dia após o sequestro, o governo anunciou que tinha libertado todas as meninas, exceto 8. No dia seguinte, se retratou sobre a declaração.

Famílias e apoiadores das meninas sequestradas protestam em Abuja em 5 de maio. (Foto: Tom Saater/BuzzFeed)

Enquanto isso, 14 meninas escaparam do cativeiro e voltaram às suas casas. O governo disse que aproximadamente 100 meninas estavam desaparecidas; os habitantes contaram mais de 200. Rumores se espalharam sobre a segurança e o paradeiro das meninas.

(Foto: AP Photo/Sunday Alamba)

Por duas semanas, os habitantes revoltados de Chibok exigiam a ajuda do exército. Pais incontroláveis se juntaram para procurar as meninas, acreditando estarem próximas. O Boko Haram ameaçou matar as meninas se os pais não parassem com a tentativa de busca.

(Foto: AP Photo/Sunday Alamba)

Então em 23 de abril, a campanha #BringBackOurGirls (tragam de volta nossas meninas) foi lançada na Nigéria, e começou a chamar atenção do mundo. Em 30 de abril, mulheres marcharam em Abuja, levantando cartazes e exigindo uma ação de seu governo. Manifestações similares aconteceram em Lagos, Kano e outras cidades.

Vine mostrando o crescimento da hashtag #BringBackOurGirls no mundo.

Com as manifestações, o interesse internacional nos sequestros, e no Boko Haram, também cresceu. O governo nigeriano tentou se defender. Em 4 de maio, Jonathan sugeriu que os pais das meninas não haviam cooperado com as autoridades.

(Foto: Tom Saater/BuzzFeed)

No mesmo dia, a esposa de Jonathan, Patience, se reuniu publicamente com dois líderes dos protestos para encontrar as meninas – e depois confidencialmente mandou prender um deles. Oficiais primeiro disseram que o ativista tentou desvirtuá-la, depois negaram a prisão.

Em 5 de maio, oficiais concordaram que mais de 300 meninas haviam sido sequestradas. 276 continuam em cativeiro, e outras 50 conseguiram escapar. No mesmo dia, o Boko Haram alegou ter raptado outras 8 meninas de outra cidade no norte. (Foto: Benoit Tessier/Reuters)

Em 5 de maio, um vídeo foi liberado no qual o líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, admite ter raptado as meninas e ameaça vendê-las como esposas. Ele também jura combater a democracia, os cristãos, a educação ocidental e o constitucionalismo.

“Não há presidente na Nigéria. Não há presidente na Nigéria nem no mundo inteiro, somente o Islã”, disse Shekau, no último vídeo do Boko Haram. “Essa é uma guerra contra os cristãos, contra a democracia e sua constituição, Alá diz que nós devemos exterminá-los quando os pegarmos”

Conforme a campanha #BringBackOurGirls se popularizava, a reprovação da comunidade internacional aumentava. Em 6 de maio, a universidade Azhar University, centro de ensinamentos sunitas, fez um pedido público para que o Boko Haram libertasse as meninas. No mesmo dia, os EUA ofereceram “assistência anti-terrorista” à Nigéria.

Na última semana, uma lista com o nome de 180 meninas sequestradas separadas por religião começou a circular. Mas a lista foi divulgada sem nenhuma informação sobre como foi feita, e se os pais tiveram colaboração. Líderes locais dizem se preocupar que nomear publicamente as meninas pode fazer mais mal do que bem. (Foto: Sunday Alamba/Associated Press)

Os Estados Unidos e a Inglaterra enviarão equipes para aconselhar na inteligência e nas negociações. A Nigéria inicialmente foi relutante em aceitar a ajuda dos EUA, em parte pelo fato de os EUA terem criticado as táticas nigerianas para combater previamente o Boko Haram.

(Foto: The Associated Press)

Em 7 de maio, a polícia nigeriana reportou que 125 pessoas foram mortas em um outro ataque no Boko Hram no norte do país. Os noticiários expõe o medo de que não haja solução fácil para a batalha do Boko Haram contra o sistema político atual, no qual as meninas, desprotegidas pelo estado, se tornaram um peça estratégica no jogo.