A Fifa escolheu o Catar como sede da Copa do Mundo de 2022. O país até já planejou gastar 100 bilhões de dólares (sim, bilhões) com o evento.

Mas as chances da Copa mudar de casa aumentam a cada dia.

Críticas sobre o calor excessivo e as péssimas condições de trabalho dos operários locais já eram feitas desde 2013. Até a preocupação com ataques terroristas fora pontuada. Mas a Fifa ignorava qualquer alerta.

Agora, com denúncias crescentes – e cada vez mais contundentes – de que os votos dos membros da Fifa na votação pela escolha da sede foram comprados, a entidade ficou em uma situação bem mais delicada.

A Fifa pode contornar a pressão a respeito do calor, mas um escândalo de corrupção é forte o bastante para pressionar Joseph Blatter.

Se a sede for realmente trocada, será um fato raro. A última vez em que isso ocorreu foi em 1986, quando o México organizou às pressas a Copa depois da Colômbia desistir do evento.

Joseph Blatter, Presidente da FIFA

1. Corrupção

A denúncia principal vem de milhares de documentos e e-mails de um homem do alto escalão da Fifa, que mostram que um ex-presidente da entidade, Mohamed bin Hammam, natural do Catar, distribuiu 5 milhões de dólares para vários membros para garantir o apoio ao Catar.

Hammam teria dado dinheiro ao ex-jogador George Weah, por exemplo. Outro indício aponta que ele deu 1,6 milhão de dólares ao ex-presidente da Fifa Jack Warner, incluindo 450 mil dólares antes da votação.

Outros 415 mil dólares teriam ido para outro ex-presidente, Reynald Temarii. Ele teria, ao todo, dado dinheiro a representantes de 30 associações africanas de futebol.

Não seria a primeira vez que Mohamed bin Hammam estaria envolvido com corrupção. Em 2012, ele foi destituído do comitê executivo da Fifa depois de ser flagrado, em 2011, comprando votospara sua campanha a presidente da Confederação Asiática de Futebol.

Já em março desse ano, o The Telegraph descobriu que uma empresa do Catar tinha pagado à Fifa dois milhões de dólares. A transação está sendo investigada pelo FBI.

Alexandra Wrage, uma canadense presidente da organização Trace Internacional, que oferece consultoria sobre como evitar subornos e corrupção para grandes empresas, foi contratada em 2013 pela Fifa. Mas ela desistiu do projeto e disse que tinha sido “o projeto menos produtivo de sua carreira”.

Segundo ela, os conselhos não tinham espaço na entidade. Ela disse que, se a Fifa fosse gerida como uma grande empresa tradicional, Joseph Blatter jamais se manteria seu presidente.

Na imagem, o sheik Mohammed bin Hamad bin Khalifa al-Thani, responsável pela candidatura, afirma que os estádios terão tecnologia para diminuir a temperatura.

2. Calor, muito calor

Outra razão para as críticas: o calor local. Durante os jogos, a temperatura poderia atingir os 50 graus Celsius. Um perigo óbvio à saúde dos atletas.

Mesmo com um relatório técnico prévio da Fifa, concluindo que o calor era preocupante e o Catar, portanto, não deveria ser escolhido, a decisão foi tomada.

Mas a própria entidade já admitiu que a escolha foi um erro. Ao canal suíço RTS, em maio, Blatter disse: “É claro, foi um erro. Eu sei, nessa vida sempre cometemos erros”.

Foi levantada a ideia de que os jogos poderiam ser no inverno local, em outubro ou novembro, mas as chances da mudança realmente ocorrer são quase nulas.

Além da “quebra de tradição”, que deixaria muita gente incomodada e até ofendida, vários gigantes do esporte já mostraram o cartão vermelho.

O canal Fox não quer a mudança, já que os jogos entrariam em conflito com a transmissão do NFL, a liga de futebol americano dos Estados Unidos.

O Comitê Olímpíco Internacional também não gostou da ideia, já que iria interferir nos Jogos de Inverno de 2022.

A Premier League, a primeira divisão do futebol inglês, também reprovou a hipótese, já que seu campeonato aconteceria no meio da Copa.

Funcionário trabalhando em obras (Fonte da imagem: Globo Esporte)

3. Trabalho escravo

Além disso, chovem críticas sobre as péssimas condições de trabalho. Muitos casos são análogos à escravidão.

Nada menos que 1200 trabalhadores já morreram durante as obras dos estádios e de infraestrutura. Um número obsceno e criminoso.

Um relatório da International Trade Union Confederation constatou que 1200 imigrantes, a maioria da Índia e do Nepal, já perderam suas vidas.

A estimativa do órgão é de que, no total, quatro mil operários vão morrer até o começo dos jogos, em 2022.

As denúncias mostram que faltam equipamentos de segurança do trabalho (muitos morreram caindo de grandes alturas) e as longas jornadas, sob um Sol massacrante, matam os operários – vítimas de ataques cardíacos e mal súbito. Outros cometem suicídio.

Além disso, os passaportes dos trabalhadores são retidos e eles já chegam devendo aos seus empregadores. Como a dívida só aumenta, eles se tornam “escravos”.

4. Terrorismo

Um relatório encomendado pela Fifa um mês antes da escolha do Catar dizia claramente que o perigo do terrorismo existia.

Segundo o Sunday Times, o relatório dizia que, por conta da proximidade com locais com forte presença da Al Qaeda, a possibilidade de um ataque terrorista durante os jogos era muito alta.

“Sou da opinião de que seria muito difícil lidar com um incidente grave no local, sem ter que cancelar o evento”, escreveu Andre Pruis, autor da análise.

A entidade simplesmente ignorou o alerta.

Pressão

A Fifa insiste em tampar os olhos para as denúncias de trabalho semi-escravo nas construções da Copa.

Também nega veementemente que os votos para a escolha do Catar tenham sido comprados.

Mas pessoas poderosas, cada vez mais, pressionam a entidade para repensar sua escolha.

A pressão mais óbvia e poderosa: o caso chegou ao Senado dos Estados Unidos.

O senador Bob Casey mandou uma carta ao comitê executivo da Fifa pedindo que a decisão seja repensada.

“É claro que permitir que a Copa seja no Catar é inaceitável diante das alegações de corrupção e dos casos de abuso de direitos dos trabalhadores”, escreveu Casey.

Ele aproveitou a chance para dizer que a Copa deveria ser imediatamente realocada para os Estados Unidos (o país concorreu com o Catar para receber os jogos)

Já na Inglaterra – que perdeu sua candidatura de 2018 para a Rússia – o Ministro dos Esportes Clive Efford disse que o mais justo seria uma nova votação.

“A Fifa precisa urgentemente repensar a sua escolha, se quiser recuperar sua credibilidade”,disse Efford.

Outros estão conduzindo investigações paralelas e independentes enquanto Joseph Blatter não decide começar a sua.

O ex-advogado da Fifa para os Estados Unidos está investigando sozinho as votações para 2018 e 2022.

O FBI também está com sua própria investigação, indo atrás de ex-membros da entidade e checando seus supostos pagamentos extra-oficiais.

Apostas

Até mesmo no mundo das apostas, os números mostram que o Catar corre sério risco de perder sua Copa.

De acordo com a William Hill, a maior casa de apostas do Reino Unido, as chances de o país perder o evento eram de 13 para 8. Recentemente, caíram até 8 para 11.

Em dezembro de 2010, após a escolha, as apostas na casa sobre o anfitrião de 2022 foram fechadas.

Contudo, foram reabertas em dezembro de 2013, quando começaram as duras críticas sobre o calor excessivo que os jogadores enfrentariam.

Defesa e alternativas

As principais alternativas da Fifa, ainda segundo a casa de apostas, seriam, por ordem de preferência: Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Inglaterra.

Já o Catar, claro, defende com força seu direito de sediar o evento.

Na semana passada, Hamad bin Khalifa bin Ahmad Al Thani, presidente da Associação de Futebol do Catar publicou um longo artigo no The Guardian, onde expôs seus argumentos sobre por que a decisão de a Copa de 2022 ser realizada no Catar era acertada.

Basicamente, sua defesa foi: há milhões de fãs sedentos por futebol no Oriente Médio e eles merecem essa oportunidade. A Copa de 1994 popularizou o esporte na América do Norte. A copa de 2002, na Ásia. A Copa de 2010, na África. Agora é a vez dos fãs de Catar e região.

Em um programa de TV no Kuwait, a relações públicas Elham al-Bar, com fortes ligações com os poderosos do Catar, despejou elogios ao comitê organizador, dizendo que o “jovem time” que vencera a disputa era inovador e criativo a ponto de superar os veteranos da Europa.

Sobre os milhares de operários mortos, al-Bar disse que os casos são puramente fabricados.