As lágrimas não foram só na Copa. Nos últimos dias, pesquisadores que acompanham a “bebê do Mississippi”, suposto caso de cura ou remissão do HIV, encontraram sinais do vírus em seu organismo. Depois de mais de dois anos sem fazer uso da terapia antirretroviral, a criança, hoje com 4 anos de idade, apresenta carga viral, que é a quantidade de vírus medida no sangue, detectável.

A criança nasceu prematuramente numa clínica do Mississippi, em 2010, a partir de uma mãe portadora do HIV que só foi diagnosticada positiva para o vírus no momento do parto e, portanto, não recebeu tratamento antirretroviral adequado durante a gestação. Se uma mãe portadora do HIV é tratada adequadamente durante a gravidez e o parto, a quantidade de vírus no sangue é suprimida para abaixo dos níveis detectáveis e a chance dela transmitir o vírus para o bebê é inferior a 1%. Infelizmente, isso não aconteceu nesse caso e a criança começou a tomar antirretrovirais. Entretanto, no caso dela, houve uma pequena e fundamental diferença.

Em geral, bebês recém-nascidos de mães soropositivas não tratadas recebem doses menores de antirretrovirais para prevenir a infecção. Isso é feito com objetivo de evitar a exposição desnecessária da maioria dos recém-nascidos que não são infectados — em torno de 75% — às possíveis toxicidades de uma terapia mais poderosa em seus pequenos organismos. Até o caso da bebê do Mississippi, o senso comum vinha ditando que evitar regimes mais tóxicos em bebês não infectados superava os benefícios da terapia agressiva nos infectados, uma vez que entendia-se que eles não seriam curados de qualquer maneira.

No entanto, a Dra. Hannah Gay, astuta pediatra da bebê, pensou diferente. Julgando que a recém-nascida estava sob alto risco de infecção, ela tomou a ousada decisão de colocá-la imediatamente sob a terapia completa de drogas antirretrovirais. A bebê recebeu o agressivo tratamento já com 30 horas de idade, mesmo antes dos resultados de seus testes de HIV — os quais, alguns dias depois, confirmaram que ela havia sido infectada ainda no útero. A bebê foi então mantida em terapia antirretroviral, mas o tratamento foi descontinuado aos 18 meses, quando a mãe interrompeu temporariamente suas visitas de acompanhamento.

A Dra. Hannah Berry Gay, pediatra da Universidade de Mississippi. (Jay Ferchaud/AP)

A surpresa veio 5 meses depois, quando a bebê foi novamente avaliada e, mesmo com a prolongada interrupção do tratamento, o HIV não foi detectado. Ao longo dos 3 anos seguintes, sob acompanhamento de médicos e cientistas, a criança não apresentou qualquer sinal da infecção pelo HIV, mesmo sem tomar remédios antirretrovirais. Este resultado surpreendente levantou a esperança de que uma cura tinha sido alcançada e, melhor, que esta poderia ser replicada em outros casos semelhantes de recém-nascidos.

Com isso, o National Institutes of Health, órgão americano que financia diversas linhas de pesquisa da cura da infecção pelo HIV, planejou um estudo clínico controlado em 12 países. O objetivo é replicar os resultados obtidos com a bebê do Mississippi em outras crianças expostas ao HIV ainda no útero, além de aumentar o entendimento sobre como buscar a cura em adultos, particularmente aqueles que são tratados no início de suas infecções.

Agora, os pesquisadores envolvidos neste ensaio clínico terão de levar a reviravolta em conta: durante a última visita médica de rotina, descobriu-se que a bebê do Mississippi voltou a ter sinais da presença do HIV. Ela não está curada. O exame de carga viral, repetido e confirmado, detectou 16.750 cópias de vírus por mililitro de sangue. Além disso, suas células CD4 do sistema imunológico, as mais afetadas pelo HIV, diminuíram de quantidade, num claro sinal de que a infecção pelo HIV voltou a se estabelecer. Também foi feito um sequenciamento genético do vírus, o qual indicou que a infecção da criança é a mesma daquela adquirida da mãe, anos atrás.

Segundo o Dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, esta “certamente é uma reviravolta decepcionante para a criança, a equipe médica envolvida em seu atendimento e para a comunidade que pesquisa HIV/aids. Cientificamente, este acontecimento nos faz lembrar que ainda temos muito mais a aprender sobre os meandros da infecção pelo HIV e onde o vírus se esconde no corpo. O National Institutes of Health continua empenhado em avançar com a pesquisa da cura para a infecção pelo HIV.”

A criança voltou a tomar os medicamentos antirretrovirais e a última informação é a de que ela passa bem, sem sofrer com efeitos colaterais. Ela continua a receber acompanhamento médico da Dra. Hannah Gay, especialista em HIV pediátrico do Centro Médico da Universidade do Mississippi, em Jackson, e quem esteve envolvida nos cuidados da criança desde o seu nascimento.