Desde 2011, a Síria vem sofrendo com as consequências de uma guerra civil, e mais de três milhões de sírios estão refugiados. A mobilização mundial aumentou após a foto do pequeno Aylan Kurdi, encontrado morto em praia na Turquia, se tornar símbolo da crise migratória. Diversas nações – incluindo o Brasil, que já recebeu mais refugiados que alguns países europeus – abriram os braços, oferecendo uma nova chance para essas pessoas fugirem da miséria e da destruição. No esporte, não foi diferente.

O Bayern de Munique, um dos maiores clubes do mundo, deu uma lição de solidariedade. Além dos jogadores do clube entrarem em campo de mãos dadas com crianças refugiadas, sendo aplaudidos por mais de 75 mil pessoas e divulgando a causa, a diretoria doou 1 milhão de euros e se comprometeu em criar um acampamento de treinamento especial, onde será oferecido gratuitamente aulas de alemão, alimentação e equipamentos esportivos. Seguindo o exemplo de seu time, o volante espanhol Javi Martinez recebeu famílias em uma estação de Berlim e fez doações de bolas e camisas.

Jogadores do Bayern de Munique em campo com crianças refugiadas em partida pela 4ª rodada do Campeonato Alemão de Futebol 2015/2016 – Bundesliga (Foto: Kerstin Joensson / Associated Press)

“O Bayern vê como parte de sua responsabilidade social ajudar as crianças, mulheres e homens que tiveram de fugir de seus países e passam necessidades”, afirmou o dirigente do clube, Karl-Heinz Rummenigg. As torcidas de outros clubes  alemães – Wolfsburg, Frankfurt e Borussia Dortmund –  também mostraram apoio com faixas, desejando boas-vindas. O Borussia não só apoiou com faixas, como recebeu 220 refugiados nas arquibancadas para acompanhar a partida contra o Odds Ballklub, pela Liga Europa, em uma ação chamada ‘Chegando em Dortmund’, promovida pela cidade, e que deve atingir o país todo. A chanceler Angela Merkel afirmou que vai liberar 6 bilhões de euros para auxiliar os refugiados, já que a Alemanha espera receber até 800 mil em 2015.

Torcedores do Borussia Dortmund dão boas-vindas aos refugiados no fim de semana (Foto: Frank Augstein/AP)

Osama Alabed Almohsen e seu filho pequeno, Zaid, viraram notícia quando foram derrubados por uma repórter quando cruzavam a Hungria junto com outras pessoas. Após passarem pela Alemanha, chegaram até a Espanha com apoio de autoridades, e foram recebidos pelo presidente do Real Madrid, Florentino Peréz. Na ocasião, puderam conhecer o centro de treinamento, o museu de troféus e ainda foram convidados para assistir uma partida. O clube espanhol – assim como o Bayern – prometeu doar 1 milhão de euros à causa.

Osama, ao lado de Florentino Perez e seus dois filhos, o pequeno Zaid e Mohammad. O filho menor estava em seu colo quando foram derrubados na Hungria. (Foto: Divulgação/Site oficial do Real)

“É um sonho tornado realidade. Amo o Real Madrid, é a minha equipe favorita e de toda a minha família. Estou muito agradecido pela recepção do presidente. Na Síria, sonhávamos em assistir a um jogo do Real Madrid, e agora será realidade. Estou muito feliz” – disse Osama ao site oficial do clube. Osama Abdul recebeu também o convite de uma escola de formação de treinadores para trabalhar. Na Síria, Osama era técnico da primeira divisão, quando comandava o Al Fotuwa SC, e agora tem uma segunda chance.

Cristiano Ronaldo em campo com camisa em apoio aos refugiados ao lado de Zaid. (Foto: Site oficial/Real Madrid)

Ainda na Espanha, o Barcelona se juntou à corrente e anunciou uma campanha em parceria com a Cruz Vermelha. O projeto “Tant se val d’on venim” (Não importa de onde viemos) vai receber doações, além do dinheiro arrecadado com leilões de itens de jogadores e apoio dos principais patrocinadores do clube.

Os craques do Barcelona, Messi, Neymar e Iniesta, em campanha para arrecadar verba para refugiados (Foto: Reprodução/Site Oficial do Barcelona)

No Brasil, alguns clubes como o Santos, Atlético-PR, e Atlético-MG, também demonstraram interesse em ajudar. O Santos, em parceria com a ONG Oasis Solidário (Associação de Assistência a Refugiados no Brasil), recebeu pouco mais de cem refugiados na Vila Belmiro durante partida contra o Internacional pelo Campeonato Brasileiro de Futebol em setembro. Antes do jogo, se reuniram em um ginásio, onde receberam alimentação.

Refugiados agradecem apoio do Brasil (Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

Algumas crianças entraram em campo com os jogadores, e isso foi repetido no jogo da Copa do Brasil, quando o Santos enfrentou o Figueirense no Estádio do Pacaembu. Esse tipo de ação ajuda a divulgação da ONG, que está recebendo doações pelo site oficial.

(Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

Também no Campeonato Brasileiro, o Atlético-PR decidiu doar 1 real por ingresso vendido no confronto com a Ponte Preta. Se o jogo seguir a  média de público, pouco mais de 16 mil reais pode ser arrecadado em uma única partida. A iniciativa é bem similar à utilizada pelo Porto, time português, que motivou outros clubes europeus a fazerem o mesmo. Esse tipo de atitude pode incentivar mais equipes no Brasil.

Torcedores sírios nas arquibancadas da Vila Belmiro, em Santos.(Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)

Com apoio do cônsul da Síria em Minas Gerais, o Atlético-MG contratou três imigrantes para trabalhar como faxineiros na sede do clube, na cidade de Lourdes. Osama Alshaik, era cabeleireiro, George Azar era professor de inglês e Majed Ibrahem, estudava engenharia antes de deixar a Síria. Em entrevista ao Globo Esporte, demonstraram que estão felizes e satisfeitos com a vida nova no Brasil. Na partida entre o Galo e o Flamengo no Estádio Independência, em Belo Horizonte, pelo Campeonato Brasileiro, eles entraram em campo pedindo paz.

(Foto: Bruno Cantini/CAM)

A Associação de Clubes Europeus fez um comunicado no começo de setembro orientando os clubes que competiam na Liga dos Campeões e Liga Europa para que doassem 1 euro por ingresso vendido para instituições ligadas à causa. Em contrapartida, torcedores do Lech Poznań, da Polônia, resolveram boicotar a partida, gerando um rendimento muito inferior ao de partidas anteriores. Menos da metade dos ingressos foram vendidos, além disso, muitos deles protestaram com a chegada de refugiados com faixas no estádio na partida pela Liga Europa 2015/2016, contra o Belenenses. Que esse péssimo exemplo não se repita e que clubes e nações apoiem mais essa causa.