Eu nunca me interessei por concursos de beleza. Mas confesso que tenho uma fantasia de estar entre as finalistas do Miss Universo para responder à pergunta “qual o seu maior desejo para o mundo?”. De preferência, queria responder por último, depois que todas as minhas concorrentes dissessem “a paz mundial”. Eu diria, então, pausadamente, que o que mais quero na vida é “mudar as métricas que norteiam as decisões no planeta”.

Claro que a paz mundial é uma causa importante, não quero desmerecer minhas concorrentes imaginárias. E há outras: o fim do desmatamento das florestas, a diminuição do trânsito nas cidades, o aumento da qualidade na educação, a gestão de lixo, a revitalização dos rios, o fim da corrupção, entre uma infinidade de outras.

Acontece que antes de estabelecer como meta esses resultados, é preciso analisar o que e como medimos para alcançá-los. Pensando por exemplo na mobilidade, há um indicador muito usado na engenharia de trânsito chamado eficiência da rua, definido pelo número de veículos que circulam na via a cada hora. O problema desse indicador é que um carro com apenas uma pessoa ou um ônibus com 60 passageiros contam, igualmente, um. A eficiência da rua mede a fluidez de veículos, não a fluidez de pessoas – pedestres por exemplo não entram nessa conta. Assim, se o objetivo de uma política de mobilidade for aumentar a eficiência das vias, isso não significa que as pessoas, em sua maioria, serão beneficiadas.

Vejamos as métricas das escolas: as notas são altas quando os alunos conseguem acertar a resposta certa às perguntas apresentadas nas provas. Parte-se do princípio de que há apenas uma resposta certa para uma questão. Nas aulas de biologia, por exemplo, as crianças aprendem que um ser vivo é aquele que “nasce, cresce, reproduz-se e morre”. O professor José Pacheco, da Escola da Ponte e do Projeto Âncora, conta que uma vez foi questionado por um aluno sobre essa informação: “não concordo, professor, eu já nasci, já cresci, mas não me reproduzi nem morri, e isso não faz com que eu deixe de ser um ser vivo”. O que esse aluno fez foi questionar a lógica da única resposta certa. Foi aí que Pacheco percebeu que as escolas não ensinam seus alunos a construir, propor e testar respostas, não oferecem um ambiente de aprendizagem, mas de formatação de conteúdo. Em outras palavras, as escolas não estão focadas em criatividade, que é definida pelo pesquisador e consultor em educação Sir Ken Robinson como a habilidade de oferecer várias respostas (plausíveis) a uma questão. Segundo Robinson, a educação faz com que as crianças percam essa habilidade ao longo dos anos. “As crianças não são educadas para a criatividade, mas contra ela”. diz ele.

O desafio não está só em adaptar indicadores e métricas existentes, mas inventar novos. O urbanista Donal Appleyard por exemplo fez um estudo na Califórnia para medir como as relações entre as pessoas são afetadas pelo fluxo de carros. Concluiu que quanto mais carros rodando em uma rua, menos relações de amizade se constroem ali. Esse é um belo exemplo de um indicador que deixa de focar apenas no trânsito como um fenômeno isolado e tenta compreender como ele impacta nas relações entre as pessoas. Uma métrica bem mais interessante.

Por isso é que quando o microfone fosse apontado para mim na final do concurso de beleza eu diria que meio maior desejo para o mundo é mudar as métricas que norteiam as decisões. Eu sei, dificilmente eu seria Miss Universo, especialmente com esse discurso. Mas eu também não me defino a partir das métricas dos concursos de beleza, então está tudo certo.