“Depois de rolar lá de dentro e ficar pendurado no para-choque do veículo apenas por um pedaço de roupa, o corpo de uma mulher foi arrastado por cerca de 250 metros, batendo contra o asfalto conforme o veículo fazia ultrapassagens. Apesar de alertados por pedestres e motoristas, os PMs não pararam”.

A descrição da cena, reproduzida em vários jornais, foi registrada por um cinegrafista amador. A imprensa de todo pais repercutiu e até a presidenta Dilma se manifestou.

Não acredito que existam seres humanos que não se comovam com algo tão brutal. Não pela morte, decorrência natural de nossa existência, mas pela forma como ela se dá. Aliás, discorrer não apenas de que maneira se dá a morte, mas de que maneira se dá a vida de determinados grupos sociais e étnicos pelo mundo afora, continua sendo infelizmente, motivo para muito debate.

Mas o que nos diz a improvável cena de um corpo negro, feminino, arrastado “feito saco”, feito qualquer coisa menos gente? O que nos diz a morte (ou assassinato?) precipitada, estúpida, violenta e covarde como a da mulher, negra, trabalhadora e mãe Claudia da Silva Ferreira?

A mim diz. E a quem mais quiser enxergar e ouvir: Diz sobre a lógica de um sistema de segurança pública a serviço de interesses privados e praticado a partir de valores violentamente racistas e machistas.

Se o corpo negro não fosse arrastado teria sido, ainda assim, atingido pela bala do policial. Mas por que, afinal de contas, a bala do fuzil do PM haveria de encontrar o corpo negro de Cláudia? Ela não estaria fora do perfil do bandido/traficante/perigoso/monstro, quase sempre jovem e negro? O relato de uma moradora, também registrado em vídeo, nos explica:

“Eles (os policiais) chegaram na maior covardia. Eles falaram que ela era traficante e que estava envolvida. (…) O único tiro saiu deles. Não teve confronto com traficante nenhum. Eles chegaram na comunidade num dia de lazer nosso. Era domingo de manhã…”

Não fosse o “acidente”, seria apenas mais uma incursão da polícia em um morro ou periferia qualquer do Rio de Janeiro. Seria mais uma troca de tiros com mais uma, duas ou dez vitimas quaisquer. Seria normal.

Não se trata aqui de repetir a lógica sensacionalista ou dizer que é um absurdo que um corpo seja arrastado por uma avenida. Trata-se de encontrar e dar consequência às respostas das seguintes perguntas:

O que os policiais estavam fazendo na comunidade?

Por que atiraram, já que há relatos de que não houve tiroteio algum?

Estavam a mando de quem? Ou os policiais não tem um comando? E quem comanda o comandante? E quem ou o quê apoia a política de quem está acima do comandante?

Ora, sabemos que a decisão fundamental é aquela da “ordem política”. Há uma política institucional que reproduz uma prática de ação policial em todo país. Os rostinhos tristes e lacrimejantes do governador e da presidente não podem ocultar a realidade: são eles os responsáveis pela política de segurança pública que, por sua vez, produz uma matança deliberada de negros e pobres todos os dias em todo o país. A morte de Cláudia choca pela forma como se deu, mas é considerada “margem de erro” para as ações do Estado. No dia a dia se mata aos montes e a grande mídia cuida de construir apoio popular para tal.

Me perdoem a pergunta, mas e se o corpo arrastado pelo carro da PM do Rio fosse um corpo branco? E se fosse um jovem de classe média vítima da truculência policial em uma das já corriqueiras manifestações de rua na capital carioca? E se a monstruosidade fosse promovida não pela PM, mas por menores infratores? Ainda é fresca a memória da tragédia do menino João Hélio (Em fevereiro de 2007 o menino de 7 anos estava no carro com a mãe em Madureira, na zona norte do Rio, quando quatro homens  – entre eles um menor, renderam a mulher para roubar o carro. O menino tentou sair do veículo, mas ficou preso pelo cinto de segurança. Foi arrastado por sete quilômetros e morreu) Qual seria a reação da sociedade? Redução da maioridade penal? Leis mais severas? Pena de morte? Foi assim naquele período. E tem sido assim sempre que um “marginalzinho” comete atrocidades. Mas, e quando os promotores e responsáveis pelo crime são policiais, políticos e o Estado. Que fazer?

Algum Lenin aí?

Há tempos escrevi um texto com meu companheiro Jaime Amparo Alves, o qual recupero um trecho agora, mais que pertinente

“Qual o valor da vida negra em uma sociedade que se diz antirracista mas insiste em produzir padrões de vulnerabilidade à morte delineados por raça e classe social? Se levarmos em conta que entre nós permanece atualizada a máxima ‘direitos humanos para quem é humano’, fica fácil entender que a morte de negras e negros não suscita comoção porque este grupo social não tem sido visto nem pela lógica dos direitos nem pela lógica do humano; em outras palavras, é um grupo que carrega um ‘defeito de cor’ que lhe anula a possibilidade de um reconhecimento pleno e pertencimento à categoria do humano.

Temos insistido que é impossível entender a ‘necro-política racial brasileira sem levar em conta o lugar do corpo negro no projeto da nação verde-amarela. Se por um lado o corpo negro é consumido na figura da mulata tipo exportação, do homem negro hiper-sexual, do carnaval, do futebol, da favela e do candomblé como espaços do turismo exótico, por outro ele alimenta a imaginação racista branca como sinônimo do ‘mal’: criminoso, perverso, dependente do bolsa-família, favelado, fanqueiro, promíscuo. Haveríamos de nos perguntar então como é possível uma sociedade não racista, como nos quer fazer crer a grande mídia brasileira – capitaneada pela Rede Globo e pela Revista Veja e providencialmente coordenadas por uma intelectualidade treinada a partir das lições de Ali Kamel, Demétrio Magnoli e sua turma – conviver com tamanho paradoxo: ao mesmo tempo em que é impossível saber quem é negro e quem é branco no Brasil, negros são as principais vítimas da violência homicida, a maioria dos que apodrecem nas prisões, os alvos prediletos do terror policial e a maioria entre os empobrecidos e analfabetos. Em outras palavras, se os cínicos insistem em negar a existência do racismo no país, com um pouco de sensibilidade politica não nos parece ser difícil localizar onde estão os negros na hierarquia social brasileira. Os encontros mortais dos negros com o aparato policial, por si só deixa nu o argumento de que é impossível saber quem é negro e quem não é no país da democracia racial. A incrível capacidade da polícia em identificar o corpo negro nas invasões de favelas e a insidiosa disparidade nos números de homicídios entre a população jovem de ambas as raças, requer no mínimo que o discurso que nega a existência do racismo se sofistique.”

Fonte das imagens: http://thinkolga.com/2014/03/19/100-vezes-claudia/