Os games usam uma técnica de gravação conhecida como microfonação binaural para criar universos envolventes para o ouvinte, utilizando exclusivamente áudios. A sensação para o jogador é a de um áudio 3D, no qual ele percebe várias dimensões por meio do som.

Os técnicos colocam pequenos microfones ao redor dos ouvidos de um boneco humano. Esses aparelhos simulam a forma como cada ouvido humano capta o som ao redor. Cada cena do jogo é gravada utilizando um método, para obter um efeito mais realista para o jogador.

Na França, o jogo A Blind Legend (“Uma Lenda Cega”) foi lançado após uma campanha de arrecadação por financiamento coletivo que obteve 40 mil euros (aproximadamente R$ 120 mil).

O jogo é rodado em computadores ou aparelhos móveis, sem nenhum gráfico. O usuário usa exclusivamente a audição para se orientar pelo cenário imaginário.

“Nós queríamos colocar os gamers cegos e deficientes no mesmo patamar de qualidade dos gamers com visão. Esse era nosso maior desafio”, disse à BBC o criador do jogo, Nordine Ghachi.

A Blind Legend narra a história de um cavaleiro que perdeu sua visão e precisa atravessar uma floresta para libertar sua mulher que foi raptada por violentos sequestradores.

O personagem é controlado pelo toque na tela do aparelho móvel ou por mouse em um computador. Movimentos bruscos com os dedos simulam a utilização de uma espada. A tela fica sem nenhuma imagem o tempo todo.

“É preciso usar fones de ouvido para obter a melhor experiência. É possível ouvir tudo ao redor: os barulhos da floresta, os pássaros voando no céu, o rio fluindo. O herói também é auxiliado por sua filha. Você usa a sua própria imaginação para criar seus próprios efeitos.”

Depois de diversos testes com usuários, o jogo recebeu o apoio de instituições como a Valentin Haüy, que auxilia pessoas com deficiência.
A Blind Legend tenta aperfeiçoar um gênero que ganhou força em 2010 com o game Papa Sangre, do estúdio britânico Somethin’ Else. O jogo de suspense exclusivamente em áudio fez tanto sucesso que teve várias sequências.

Para Robin Spinks, do Real Instituto Britânico de Pessoas Cegas, o mercado potencial para esses games é grandioso – engloba mais de 285 milhões de pessoas em todo o mundo.

“É maravilhosamente inclusivo. A maior parte dos cegos está excluído de games. Esse tipo de jogo estabelece um novo patamar para outros estúdios.”

Nathan Edge, um jovem britânico de 20 anos com deficiência visual, diz estar feliz que este mercado esteja sendo ocupado por produtores independentes. No passado, ele chegou a escrever cartas para as grandes produtoras de games manifestando sua decepção, porém nunca foi atendido. Nathan diz que a experiência de isolamento de cegos pode ser muito frustrante.

“É um mundo que nos isola demais, às vezes. Você quer fazer o que as outras pessoas estão fazendo e jogar o que elas jogam, para poder falar com os amigos.”

O game estará disponível para downloads gratuitos em inglês e francês no iTunes no ano que vem.