Macaco na Indonésia que roubou a câmera do fotógrafo David Slater, e feliz, fez seu autoretrato como nós fazemos diariamente com nossos celulares.

Dentro do iTunes existe uma aba chamada iTunes-U, de University. Ali você pode fazer download de incontáveis cursos, aulas, podcasts, palestras de forma gratuita, em inglês. Mas também é possível baixar palestras em português até mesmo do YouTube, basta extrair o áudio e voilà, você terá no seu iPod ou outro mp3 player farto material para ouvir e aprender. Foi assim que um abracadabráudio abriu uma nova portinhola que pode responder a esta grande pergunta sobre nossos vícios atuais. Senta que lá vem neurohistória.

Estava eu indo para minha terapia ouvindo uma palestra do TED com uma psicóloga chamada Nancy Etcoff quando ouvi algo tão surpreendente que parei no meio da rua exalando pontos de interrogação e de exclamação para o infinito. É sobre a diferença química entre querer e prazer.

querer está ligado a uma substância química chamada dopamina. A dopamina está em todo lugar no nosso cérebro e alimenta nosso poderoso sistema de recompensa. E de vícios. É ela que leva você a sabotar sua decisão de fazer dieta, que induz você a verificar só mais uma vez seus emails no meio da madrugada, que detona seu cartão de crédito numa liquidação comprando o que você não precisa com o dinheiro que você não tem. A dopamina tem tudo a ver com dependência.

Essa descoberta foi feita no anos 50 por Olds and Milner. Os dois cientistas fizeram experiências com um ratinho de laboratório que recebia estímulos elétricos em seu cérebro quando ele apertava uma alavanca. O ratinho parou de comer, fazer sexo, brincar e só ficava apertando a barra milhares de vezes sem parar, para receber mais e mais e mais estímulos. Aquilo se tornou um vício irresistível, incontrolável,porque existia uma recompensa imediata que continha uma ‘saliência’ emocional insuportavelmente atraente e que liberava mais e mais dopamina, o alimento desse querer insaciável.

Agora pense no ratinho com o seu botão de dopamina e todos os nossos vícios moderninhos. Nós, postando fotos e mais fotos no Instagram para receber corações. Nós, trocando avatar no facebook vinte vezes por semana para receber likes e mais likes. Nós, subindo fotos de nós mesmos, lindos e arrumados, com filtros sensacionais, sendo recompensados com elogios de ‘tá gata’ , ‘arrasou’. O que é isso senão mais e mais dopamina alimentando nossos sistemas de recompensa?

Sim, nós somos o ratinho puxando a alavanca até morrer. Somos os fiéis e carentes devotos de Nossa Senhora dos Likes Alcançados, de joelhos, suplicando por atenção e afeto, trocando curtidas virtuais por sexo em 3D, comentários positivos nos posts de blogs em vez de piqueniques ao ar livre. Somos nós, uma China de escravos voluntários, trabalhando de graça para o Sr. Zuckerberg, gerando conteúdo infinito para um modelo de negócio baseado no vício da dopamina.

Molécula de oxitocina em forma de colar, do Made With Molecules

Mas é só isso a vida?

Não, não existe só o sistema de recompensa infinita que leva ao vício, o mesma da cocaína, metanfetamina e todas essas coisas de Breaking Bad. Tem muito, muito mais. Tem, por exemplo, o sistema de prazer, aquele com começo, meio e fim, como o desejo sexual. Todo mundo sabe, tesão é coisa que dá e passa, no pun intended. Você vai lá, faz sexo, termina e depois que seu desejo sexual está totalmente saciado,ao contrário da dopamina infinita, a última coisa que você quer é sexo. Você pode querer um cigarro, um prato de morangos, um pote de nutella, pizza de ontem. Qualquer coisas menos sexo. Por causa da oxitocina (ou ocitocina). A oxitocina é um hormônio, um neuromodulador do cérebro, também chamada de ‘hormônio do amor’.

Nossa sociedade está totalmente dopamina-dependente. A Internet é movida por nós e pela dopamina. Esse querer que não passa, que prende você no twitter, que obriga seu cérebro a comentar todos os assuntos do dia, que faz a pessoa entrar na rede social perguntando ‘qual é a boa de hoje’, com MEDO de perder algum assunto e ficar por fora. É dopamina, dopamina, dopamina ALL THE WAY DOWN.

A oxitocina é outra conversa. Quando você beija seu cachorro, tem um orgasmo, olha pro seu bebê na hora de amamentar, é a oxitocina falando. A oxitocina está ligada também ao relacionamento, ao amor duradouro, às relações de afeto de longo prazo.

Estou começando a aprender essas coisas. Há alguns anos acompanha os trabalhos do neurocientista Antonio Damásio, tenho feito cursos no Coursera (filosofia, psicologia social, comportamento humano), lido livros sobre hábitos e comportamento (Leonard Mlodinow, “O andar do bêbado”, “Subliminar”), assistido centenas de palestras e conferências no TED, iTunes-U. Uma vida não bastará para ver uma ínfima parcela. Mas é sempre bom sair do mundinho onde estamos marinados, das briguinhas de Twitter, do Tribunal do Facebook, dos críticos de televisão, dos fanáticos ensandecidos e olhar pro todo. E lembrar, que cada um de nós é refém de seus processos mentais, de sua genética e história, que cada um está num ponto diferente do espaço-tempo em seu PRÓPRIO UNIVERSO e que, por isso, é tão difícil entender esse inferno Sartreano que são ‘os outros’.

Mas dá pra aprender alguma coisa e decidir, nesse mundo aleatório e no nosso cérebro tendencioso de atitudes subliminares, pelo menos, se a gente quer ser #teamDopamine ou #TeamOxytocin.

Tô no #TeamDopamine tentando passar pro #TeamOxytocin, usando técnicas do Pai-Mei e o conceito de MoodFood, quer dizer, tô buscando menos dopamina que vem da Internet e mais dopamina que vem da banana madura, aquela que nos lembra todo dia que cada macaco vive no seu galho.

Beijo pro Darwin.