Uma pesquisa da Universidade Harvard, divulgada em junho de 2014, acaba de mostrar que uma dose de rebeldia ajuda o profissional a se destacar dos colegas no trabalho. De acordo com o estudo, pessoas admiradas pela competência adquirem com o tempo certo crédito para cometer atitudes transgressoras sem receber julgamentos negativos.

Essa licença para a rebeldia é um fenômeno frequente nas empresas. A atitude ajuda o funcionário em destaque a reforçar a imagem de autonomia já conquistada.

“O mecanismo psicológico é que o profissional, ao perceber sua importância dentro da empresa, sente que pode contestar sem medo de perder o lugar na hierarquia social”, afirma a italiana Silvia Bellezza, autora da pesquisa, de Boston, nos Estados Unidos.

“Os colegas de trabalho tendem a aprovar a originalidade dos inconformados bem-sucedidos, que passam a ser vistos como líderes naturais.” O estudo também mostra que a rebeldia moderada é um gesto intencional. Um exemplo corriqueiro é a desobediência às regras de etiqueta.

Seguros de si, alguns empregados se permitem vestir em desacordo ao padrão, utilizar um vocabulário mais informal e destinar menos cerimônia à hierarquia. “Ao revelar que o desvio está sendo feito de propósito, eles podem se destacar positivamente”, diz Silvia.

Assim como o perfil informal, existem outros tipos de rebelde corporativo. Mas a mensagem mais importante para a carreira é que, por ser deliberadas, essas atitudes podem ser copiadas e assumidas por qualquer profissional.

Coautora do estudo e orientadora de Silvia no doutorado, Francesca Gino, professora da Harvard Business School, resolveu testar o efeito de sua rebeldia na própria instituição.

Em vez de usar sapatos sociais e seguir a formalidade esperada, ela optou por calçar chamativos tênis vermelhos em uma de suas aulas para executivos. Por ser muito respeitada no meio acadêmico, Francesca sentiu aprovação dos alunos à sua quebra de padrão.

Qualquer que seja o ato de resistência ao sistema, o autor assume riscos ao cometê-lo. É por isso que a maioria das pessoas opta por seguir as normas, temerosas das reações possíveis. Esse detalhe é fundamental: a rebeldia só surte efeitos positivos quando o infrator, de antemão, já conquistou alguma admiração dos colegas.

“Quem não tem o perfil-padrão precisa ter muita consciência do impacto que produz na equipe”, afirma Irene Azevedo, diretora de negócios da LHH|DBM, consultoria de recolocação de São Paulo. “Antes de sair da linha, o profissional deve certificar-se de que os outros o reconhecem e gostam de seu trabalho.” Sem competência comprovada, o indivíduo pode ser ridicularizado ou criar antipatia e prejudicar sua carreira.

A cabeça do transgressor

A tendência para contestar está no sangue dos rebeldes. De acordo com um estudo conduzido pela MindTime Inc., empresa de pesquisas sobre a mente humana com sede na Califórnia, nos Estados Unidos, existem três estilos de pensamento — orientado ao presente, passado ou futuro —, que são definidos por uma combinação de carga genética com estratégias de sobrevivência.

Pensadores do passado buscam a verdade tradicional, reconhecem as autoridades e seguem as regras. Tendem a ser introvertidos. Nas empresas, costumam ocupar cargos nas áreas de pesquisa e finanças. Já os pensadores do presente buscam a estabilidade social.

Por isso pretendem assegurar o cumprimento das normas e a organização das tarefas. São entusiastas da inovação, mas em si não inovam muito. Eles estabelecem a harmonia entre o passado e o futuro. Em geral, realizam-se trabalhando nos setores de RH, controladoria e diretoria executiva.

Por fim, os pensadores do futuro quebram as regras e posicionam-se fora do sistema, para tentar entendê-lo e propor mudanças. São comunicativos, carismáticos e extrovertidos. Têm destaque nos departamentos de criação, inovação e vendas. São apenas tendências, porém.

Nada impede que um rebelde possa se manifestar com sucesso numa área mais sisuda ou que um conservador tenha destaque em um meio liberal.

A maioria esmagadora dos rebeldes corporativos é de pensadores do futuro, mas isso não significa que pensadores do passado ou do presente não quebrem regras.

Em ambientes futuristas demais, são eles os responsáveis por fazer objeções às ideias fora da realidade. Existem dois tipos de revolucionário: o egocêntrico, que contesta o sistema por motivos pessoais não benéficos ao grupo; e o social, que luta por uma causa nobre.

Rebele-se por uma causa

Ter atitudes diferentes do que é esperado ajuda a pessoa a se destacar na empresa. Mas se a ação não tiver finalidades que colaborem para a equipe atingir seus resultados mais rapidamente, ou se não trouxer mudanças construtivas, o efeito pode ser negativo. As reformas precisam seguir o sentido das oportunidades.

Essa é a linha tênue entre o bom e o mau insubordinado. Revoltar-se tão-somente para aparecer pode configurar arrogância e manchar a imagem.

O sucesso não está amarrado à capacidade do profissional de desobedecer. “É possível ter destaque fazendo um bom trabalho e ajudando aos outros”, afirma Irene, da LHH|DBM.

“Se o indivíduo não tiver um perfil contestador, não há necessidade de forçar a barra.” De modo semelhante, não é preciso ser um transgressor o tempo todo ou se esforçar demais para mostrar descontentamento.

A falta de naturalidade passa insegurança. Tenha consciência de seu perfil e, caso decida inovar, reúna argumentos para defender suas ideias e busque aliados. Se a rebeldia for pertinente, dificilmente você vai fracassar. Como diz o lema do Facebook, seja ousado.